Por 14 anos o Guia de Jazz esteve no ar com a missão de aproximar os internautas ao jazz. Um dos tópicos mais visitados era o de dicas de CDs, no qual dezenas de discos eram indicados e resenhados por mim. Infelizmente, com o fim do site em setembro de 2015, todo esse acervo foi "perdido".
Mas não totalmente perdido. Além do livro Jazz ao Seu Alcance - que traz todo o conteúdo do guia (dicas de CDs, DVDs, livros, entrevistas e muito mais) - você encontrará quinzenalmente neste blog algumas dicas de CDs publicadas anteriormente no site Guia de Jazz.
Sempre que possível, ao final de cada resenha você encontrará vídeos do Youtube com algumas faixas do disco indicado para escutar. Boa leitura e audição. Veja outras dicas de CDs aqui.
Dois sentimentos opostos – alegria e tristeza - vêm a minha cabeça quando escrevo ou escuto algo sobre o pianista Kenny Kirkland. A alegria acontece toda vez que ouço seus solos ao lado de feras como Elvin Jones, Sting e os irmãos Wynton e Branford Marsalis. Logo em seguida, uma tristeza paira pelo ar e um sentimento de pesar me consome por alguns segundos.
A morte prematura do pianista, em 1998, com apenas 43 anos de idade, ainda não foi bem digerida. É claro que Kirkland não foi o único que morreu jovem. O mundo da música está cheio de exemplos, é só lembrar de Charlie Parker, Clifford Brown, Lee Morgan, Dinah Washington, Raphael Rabello, Elvis Presley e Billie Holiday. Apesar do ditado “para morrer basta estar vivo”, é sempre um baque quando um jovem talento desaparece de uma hora para outra.
Influenciado por Herbie Hancock, a carreira de Kirkland foi recheada de parcerias e apresentações irrepreensíveis. No início dos anos 80, o pianista trabalhou com o trompetista Wynton Marsalis. Em seguida, ao lado do saxofonista Branford Marsalis, participou das gravações e da turnê dos discos Nothing Like the Sun e do clássico álbum Bring on the Night, ambos do cantor Sting. A parceria com Branford continuou no início dos anos 90, quando lançou seu primeiro e único CD solo, Kenny Kirkland.
Nesse disco é possível sentir toda a vitalidade do toque de Kirkland. Acompanhado de Branford, Jeff “Tain” Watts (bateria) e Charnett Moffett (baixo), o ouvinte tem como cartão de visita o tema “MR. J.C.”, uma piração de oito minutos de duração de tirar o fôlego. O mesmo acontece com a versão “When Will the Blues Leave”, de Ornette Coleman, com destaque para o sax alto de Roderick Ward, pseudônimo criado pelo saxofonista Kenny Garrett, e o baixo de Moffett.
Em “Chance”, com a formação clássica de trio – piano, baixo e bateria – Kirkland diminui o ritmo sem deixar de lado sua destreza e criatividade características. O clima tranquilo também rege “Revelations” e “Steepian Faith”, com Branford atacando seu sax soprano, e em “Ana Maria”, de Wayne Shorter. Kirkland mostra sua influência latina em temas como “Criss Cross”, composta por Thelonious Monk, “Celia”, de Bud Powell.
Apesar da sensação de alegria e tristeza citada no início do texto, sempre o sentimento de alegria acaba imperando. A experiência é similar ao ouvir mestres como Miles, Monk, Gillespie e Ellington, ou seja, uma profunda nostalgia e uma prolongada sensação de prazer e recompensa. O disco está fora de catálogo, mas vale a pena garimpar por aí para encontrar um exemplar.
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