sábado, 22 de fevereiro de 2020

Pat Metheny volta orquestrado e ousado em novo álbum

Quase cinco décadas se passaram desde o primeiro disco lançado pelo guitarrista norte-americano Pat Metheny. Durante todos esses anos, o músico sempre procurou se desafiar musicalmente. Solo, em dueto, em trio, em quarteto, com orquestra, não importa, seus discos nunca passaram desapercebidos.

Hoje, aos 66 anos, Metheny volta à cena com um disco à altura do seu talento e da sua história. From This Place traz o guitarrista escorado pela orquestra de Hollywood Studio, dirigida por Joel McNeely, e arranjos dos experientes pianistas Alan Broadbent e Gil Goldstein, que já trabalhou com Metheny na década de 1990.

Não é a primeira vez que o guitarrista tem uma orquestra o acompanhando, mas este é sem dúvida sua melhor parceria com este tipo de arranjo. Para ajudá-lo nesta nova empreitada, ele escalou seu trio habitual formado por Antonio Sánchez (bateria), Linda May Han Oh (baixo) e Gwilym Simcock (pianista).

Para o fã mais assíduo do guitarrista, será impossível ouvir este disco e não lembrar do álbum Secret Story (1992), considerado por muitos o disco mais ousado de sua carreira. As referências estão em quase todas as músicas. Logo no primeiro tema, "America Undefined", com 13 minutos de duração, é possível sentir a música tomando forma e expandindo os horizontes sonoros do ouvinte. A orquestra cria uma atmosfera de imensidão e a bateria de Sánchez pulsa com força e precisão.


Metheny tem quase cinco décadas de carreira e 20 Grammys no currículo


A fórmula é repetida em "Wide and Far", desta vez com mais espaço para as frases envolventes da guitarra de Metheny, e "You Are". Em "Pathmaker", a orquestra de McNeely está presente, mas com a sutileza necessária para deixar o quarteto fazer seu papel de protagonista. O mesmo acontece com "Sixty-Six", com a música oferecendo uma montanha russa de sensações e um pouco de nostalgia ao recriar a bateria de uma das mais populares composições de Metheny: "Last Train Home".

Com a presença da orquestra, não poderia faltar temas mais introspectivos e delicados. É isso que o músico traz em "Love May Take Awhile", na tocante "From This Place", com a voz de Meshell Ndegeocello, e em "The Past in Us", com a gaita de Gregoire Maret e a percussão de Luis Conte.

A famosa guitarra sintetizada que tanto marcou a carreira de Metheny aparece em "Same River", com a sonoridade do saudoso Pat Metheny Group. Por fim, "Everything Explained", que não poderia ter um nome mais perfeito para sintetizar a sonoridade do álbum. O tema pulsante traz Metheny tomando a dianteira na sua primeira metade, seguido depois de uma bela participação do pianista Simcock.

Pat Metheny toca no Brasil nos dias 16 e 17 de março, respectivamente, em São Paulo e no Rio de Janeiro, e depois segue com a turnê para o Chile, Peru, México e Cuba. Infelizmente, a orquestra que acompanha o músico no novo álbum não virá, mas o trio com Sánchez, Simcock e Oh está garantido. Sorte de quem tiver a oportunidade de ver o experiente músico mais uma vez de perto.











sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Saudade de Pixinguinha

Falar de Pixinguinha é falar sobre a origem do choro e da brasilidade de nossa música. Para muitos, ele foi o mais genial músico brasileiro de todos os tempos. Ao seu lado, nomes como Tom Jobim, Cartola, Heitor Villa-Lobos, Garoto, Radamés Gnattali, Ary Barroso, Jacob do Bandolim e Dorival Caymmi são a elite e o alicerce do que é a essência da música popular brasileira.

Nascido Alfredo da Rocha Vianna Filho, em 23 de abril de 1897, em Piedade, Rio de Janeiro, era filho do flautista e funcionário do Departamento Geral dos Telégrafos, Alfredo da Rocha Viana e de Raimunda Viana. O Dia Nacional do Choro é comemorado em 23 de abril em homenagem ao músico.

Aos 14 anos, já era flautista profissional. Em 1915, fez sua primeira gravação para a Casa Falhauber, com o grupo Choro Carioca, interpretando o tango brasileiro “São João Debaixo d’água”, de seu professor Irineu de Almeida. Em 1917, gravou o choro “Sofre Porque Queres” e a valsa “Rosa”, em parceria com Alfredo Vianna.

Em 1918, Pixinguinha e o amigo Donga foram convidados para tocar na sala de espera do cinema Palais, no centro do Rio de Janeiro. Nascia então o grupo “Oito Batutas”, formado por Pixinguinha (flauta), José Alves (bandolim), José Palmieri (pandeiro), Nelson dos Santos (cavaquinho), Donga e Raul Palmieri (violão), Luís de Oliveira (bandolim e reco-reco) e China (canto, piano e violão).

Três anos depois, o grupo fez uma temporada de sucesso em Paris, na França. De volta ao Brasil, continuou se apresentando com Os Batutas até terminar o grupo e recomeçar ao lado de Donga a Orquestra Pixinguinha-Donga. Sua composição mais famosa, "Carinhoso", é escrita em 1928, mas a versão definitiva com a letra de João de Barros só aconteceria em 1937. Em 1932, Pixinguinha fundou o grupo da “Velha Guarda”, junto com Luís Americano, Vantuil, Donga, João da Baiana e outros.

Estátua do músico na Travessa do Ouvidor, centro do Rio

Entre suas composições mais marcantes estão "Rosa" (1917), que ganharia letra de Otávio de Sousa em 1937, "Um a zero" (1949) e "Vou vivendo" (1946), ambas em parceria com o flautista Benedito Lacerda, "Lamentos" (1928), que ganharia letra de Vinicius de Moraes em 1962 e teria o nome mudado para "Lamento", "Naquele Tempo" (1934) e "Ingênuo" (1947).

Em 1968, Pixinguinha grava o disco Gente de Antiga ao lado da cantora Clementina de Jesus e do compositor João da Baiana. O álbum traz sambas, choros e partido-alto. No repertório, "Cabide De Molambo" e "Batuque Na Cozinha", de Baiana, além de composições de Pixinguinha como "Aí Seu Pinguça" e "Fala Baixinho". Ouça abaixo a íntegra deste disco.

Em 17 de fevereiro de 1973, um sábado de Carnaval, Pixinguinha faleceu dentro da igreja Nossa Senhora da Paz, onde estava para batizar o filho de um amigo. Foi enterrado no dia seguinte, no cemitério de Inhaúma, Rio de Janeiro, ao lado de sua mulher, que falecera um ano antes.

Em 1998, o saxofonista Paulo Moura lança o disco Paulo Moura & Os Batutas - Pixinguinha, com o repertório composto por obras de Pixinguinha. Gravado ao vivo no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, Paulo Moura escalou uma formação de octeto, nos moldes do grupo Oito Batutas de Pixinguinha, para criar a atmosfera ideal para a plateia.

O grupo é formado por Joel do Nascimento (bandolim), Zé da Velha (trombone), Jorge Simas (violão de 7 cordas), Márcio Almeida (cavaquinho), Jorginho (pandeiro) e Marçal e Jovi (percussão). No repertório, clássicos como "Urubu Malandro", "Pelo Telefone", "Rosa" e "Cochichando". Ouça abaixo a íntegra deste disco.

Em 2016, no bairro de Ramos, zona norte do Rio de Janeiro, no Bar da Portuguesa, foi inaugurada uma estátua em homenagem ao músico. O local era frequentado por Pixinguinha, que costumava ir ao bar vestindo pijama e chinelo, exatamente como foi retratado na bela estátua criada pelo escultor Ique. Essa é a segunda estátua do músico na cidade. A primeira está na Travessa do Ouvidor (foto acima), no centro da cidade, e é de autoria Otto Dumovich.

Em 2017, foi divulgado que o filme Pixinguinha - Um Homem Carinhoso, estrelado por Seu Jorge (Pixinguinha) e Taís Araújo (mulher do compositor) (foto acima), estava com dificuldade para ser concluído por falta de dinheiro.

A direção é da cineasta Denise Saraceni e conta ainda com a participação especial de Lázaro Ramos, que interpreta Alfredo Vianna, pai de Pixinguinha. Não há previsão para o lançamento do filme.

Para conhecer um pouco mais Pixinguinha e o choro, veja a série Brasil Toca Choro, produzida pela TV Cultura e disponível no canal oficial do programa no Youtube. Clique aqui e boa diversão.

Em 2013, o bandolinista Hamilton de Holanda lançou o disco Mundo Pixinguinha, com participações especiais de Stefano Bollani, Richard Galliano, André Mehmari e Omar Sosa. Clique aqui para ver o DVD de Hamilton de Holanda.

Nos vídeos abaixo você encontro programas especiais sobre Pixinguinha exibidos pela TV Cultura, um no programa Bem Brasil, com participação de Henrique Cazes, Bocato, Armandinho, Nosso Choro e Mônica Salmaso outro no programa Ensaio, com Ademilde Fonseca, Vinicius de Moraes, Toquinho, Época de Ouro, Altamiro Carrilho, Nicolino Copia e Tom Jobim.






















Fonte: MUSEU AFRO BRASIL & UOL EDUCAÇÃO

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Rachelle Ferrell - Live in Montreux 91-97

Por 14 anos o Guia de Jazz esteve no ar com a missão de aproximar os internautas ao jazz. Um dos tópicos mais visitados era o de dicas de CDs, no qual dezenas de discos eram indicados e resenhados por mim.

Infelizmente, com o fim do site em setembro de 2015, todo esse acervo foi "perdido". Mas não totalmente perdido.

Além do livro Jazz ao Seu Alcance, que traz todo o conteúdo do guia, com dicas de CDs, DVDs, livros, entrevistas e muito mais, você encontrará quinzenalmente neste blog algumas dicas de CDs publicadas anteriormente no site Guia de Jazz.

Sempre que possível, ao final de cada resenha você encontrará vídeos do Youtube com algumas faixas do disco indicado para escutar. Boa leitura e audição. Veja outras dicas de CDs aqui

Rachelle Ferrell - Live in Montreux 91-97 (2002)


O mercado de música é um mistério. Às vezes nos perguntamos por que este ou aquele cantor não é conhecido, já que há tanto talento. Mas sabemos que a vida não é racional ou lógica, muito menos o show business. Esta introdução é a ideal para falar sobre a cantora norte-americana Rachelle Ferrell.

Formada pela renomada escola Berklee College of Music, de Boston, ela gravou seu primeiro disco em 89. Na época, apenas a crítica prestou alguma atenção. Felizmente, Rachelle teve dois padrinhos de peso, o trompetista Dizzy Gillespie e o produtor e arranjador George Duke. Com isso, ela conseguiu seu espaço e um pequeno, mas fiel, fã-clube.

Para conhecer um pouco seu universo, um bom começo é o disco Live At Montreux 1991-97, lançado em 2002. Aqui, você encontra uma compilação das três apresentações da cantora, em diferentes anos, no mais charmoso festival de jazz do planeta, o Montreux, da Suíça.

O disco abre com uma versão de “You Send Me”, do cantor soul Sam Cooke. Acompanhada de um trio afiado, o pianista Eddie Green, o baixista Tyrone Brown e o baterista John Roberts, Rachelle cria um arranjo jazzístico da pesada e mostra seus dotes musicais. A mesma atmosfera com o trio de jazz acontece em “You Don’t Know What Love Is” e “Don’t Waste My Time”, de autoria da própria cantora. Para completar a primeira parte do disco, a intimista “My Funny Valentine”, com destaque para o baixo acústico de Brown.


Rachelle Ferrell participou de várias edições do Montreux Jazz Festival


Na parte mais pop do álbum, a voz de Rachelle lembra muito a da cantora inglesa de rhythm and blues, Des’ree. Aqui, a presença de George Duke é vital nas canções autorais de Rachelle, “I Can Explain” e “I’m Special”. O jazz volta a reinar em “Bye Bye Blackbird”. Para agraciar o público suíço, a ela interpreta duas canções na língua local, o francês. São elas “Me Voila Sol” e “On Se Reveillera”.

Após ouvir este disco, o leitor entenderá bem o significado da introdução deste texto. Rachelle domina sua voz com muita competência. Ela se dá bem no jazz, no pop e no soul. Com suas peripécias vocais, que caminham entre Betty Carter, Sarah Vaughan, Diane Schuur e Dianne Reeves, esta norte-americana nascida na Pensilvânia ainda será descoberta para o bem do jazz e para a alegria do público.