quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Rawsey Lewis comanda o Legends Of Jazz

Lá no século XX, pelo menos nos Estados e na Europa, era comum encontrar programas de jazz na televisão, entre eles o Jazz 625, no Reino Unido, o Jazz Casual, comandado pelo americano Ralph J. Gleason, e o espanhol Jazz Entre Amigos, apresentado por Juan Claudio Cifuentes.

Felizmente, com a chegada da TV paga, a grade de programação aumentou consideravelmente, mas o jazz continua preterido por grande parte das emissoras. De vez em quando, um pequeno suspiro de esperança traz o jazz de volta. Atualmente, canais como o Arte 1 e o Bis oferecem timidamente espaço para alguns concertos de jazz.

A situação nos Estados Unidos também não é animadora. As tentativas de oferecer um espaço mais nobre para o jazz não tem surtido efeito prático. Uma das últimas tentativas aconteceu em 2006, no canal norte-americano PBS, com o programa Legends of Jazz, apresentado pelo pianista Rawsey Lewis (foto acima).

A cada edição, Lewis recebe jazzistas para um bate-papo e apresentações inspiradas. Ao todo foram produzidos 13 programas intitulados The Golden Horns, The Jazz Singers, Contemporary Jazz, The Altos, The Piano Masters, Roots Of Jazz: The Blues, The American Songbook, Latin Jazz, The Tenors, Brazilian Jazz, The Killer B'S e NEA Jazz Masters 2006.

A intenção da série é trazer músicos de diferentes formações e gerações para falarem um pouco sobre suas influências e seus processos de criação.

Apesar do bate-papo ser muito superficial, a iniciativa de colocar em um mesmo palco duplas como Jim Hall e Pat Metheny, Jane Monheit e John Pizzarelli, Robert Cray e Keb' Mo, Al Jarreau e Kurt Elling, Joey DeFrancesco e Dr. Lonnie Smith, por exemplo, é motivo suficiente para você assistir. Na foto acima, Rawsey Lewis ao lado dos trompetistas Roy Hargrove, Clark Terry (sentado) e Chris Botti, que participaram de um programa da série chamado The Golden Horns.

O Brasil ganha destaque com um programa especial estrelado pelo cantor Ivan Lins e o violonista Oscar Castro-Neves. No programa, "Águas de Março" , "Começar de Novo" e "Samba do Avião".

Outro destaque da série é o encontro dos guitarristas Pat Metheny e Jim Hall. Dois gênios da guitarra em um mesmo palco e interpretando o clássico "All The Things You Are", de Jerome Kern e Oscar Hammerstein II. Infelizmente o programa com Metheny e Hill é o único que não foi lançado no DVD da série.

O programa, infelizmente, não sobreviveu à primeira temporada. Não ficou claro se foi cancelado por falta de interesse da emissora ou de patrocinadores, ou se terminou porque foi idealizado para ter apenas esse número de episódios. Mais uma tentativa de trazer jazz para "as massas" que não prosperou.

Os 13 programas estão disponíveis em DVD, vendidos separadamente por temporada, com 3 DVDs em cada box, que inclui 4 programas cada. Abaixo você encontra a relação completa de cada DVD e suas respectivas atrações.

Um quarto DVD intitulado Showcase, uma espécie de best of do programa, também foi lançado, com Clark Terry, Dave Brubeck e Benny Golson, Jane Monheit, John Pizzarelli, Chris Botti, entre outros.



DVDs

Volume 1

"The Golden Horns - Clark Terry, Roy Hargrove & Chris Botti
"The Jazz Singers - Al Jarreau & Kurt Elling
"Contemporary Jazz - George Duke, Lee Ritenour & Marcus Miller
"The Altos - David Sanborn & Phil Woods

Volume 2

"The Piano Masters - Dave Brubeck & Dr. Billy Taylor
"Roots: The Blues - Robert Cray & Keb' Mo'
"American Songbook - Jane Monheit & John Pizzarelli
"Latin Jazz - Eddie Palmieri & Dave Valentin

Volume 3

"The Tenors - Benny Golson, Chris Potter & Marcus Strickland
"Brazilian Jazz - Oscar Castro-Neves & Ivan Lins
"The Killer Bs - Joey DeFrancesco & Dr. Lonnie Smith
"NEA Jazz Masters 2006 - Tony Bennett, Chick Corea & Ray Barretto



REPERTÓRIO DVD SHOWCASE

“Take 5” - AL JARREAU & KURT ELLING
“My Funny Valentine” - CHRIS BOTTI
“The Panther” - MARCUS MILLER, GEORGE DUKE, LEE RITENOUR
“Senor Blues” - DAVID SANBORN & PHIL WOODS
“Armando’s Rhumba” - CHICK COREA
“12 Year Old Boy” - ROBERT CRAY & KEB MO
“Killer Joe” - BENNY GOLSON
“The Island” - IVAN LINS
“Mumbles” - CLARK TERRY
“They Can’t Take That Away From Me” - JANE MONHEIT & JOHN PIZZARELLI
“Obsession” - DAVE VALENTIN
“Take The ‘A’ Train” - DAVE BRUBECK & BILLY TAYLOR
“Dear Lord” - RAMSEY LEWIS

Veja abaixo, na íntegra, o DVD SHOWCASE:



Veja abaixo, na íntegra, o episódio com os guitarristas Pat Metheny e Jim Hall:



Veja abaixo a música "Samba do Avião", com Ivan Lins e Oscar Castro-Neves:

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Roy Hargrove - With The Tenors Of Our Time

Por 14 anos o Guia de Jazz esteve no ar com a missão de aproximar os internautas ao jazz. Um dos tópicos mais visitados era o de dicas de CDs, no qual dezenas de discos eram indicados e resenhados por mim. Infelizmente, com o fim do site em setembro de 2015, todo esse acervo foi "perdido".

Mas não totalmente perdido. Além do livro Jazz ao Seu Alcance - que traz todo o conteúdo do guia (dicas de CDs, DVDs, livros, entrevistas e muito mais) - você encontrará quinzenalmente neste blog algumas dicas de CDs publicadas anteriormente no site Guia de Jazz.

Sempre que possível, ao final de cada resenha você encontrará vídeos do Youtube com algumas faixas do disco indicado para escutar. Boa leitura e audição. Veja outras dicas de CDs aqui

Essa resenha está sendo republicada para homenagear Hargrove, que faleceu no dia 2 de novembro de 2018, aos 49 anos de idade. Que descanse em paz.

Roy Hargrove - With The Tenors Of Our Time (1994)

Apadrinhado por Wynton Marsalis, Roy Hargrove se tornou, em menos de cinco anos, um dos maiores talentos do trompete da nova geração. Influenciado por Lee Morgan e Freddie Hubbard, ele começou a carreira gravando pela gravadora Novus. Após cinco discos, a toda poderosa Verve não teve dúvida e o contratou, na época com 23 anos.

Aliado à Verve, Hargrove entrou em contato com grandes nomes do jazz e estreou com o pé direito sua parceria com o lançamento do disco With The Tenors Of Out Time, de 1994.

Neste trabalho, o quinteto do trompetista, com destaque para o pianista Cyrus Chestnut e o baixista Rodney Whitaker, convidou cinco grandes saxofonistas tenores: Joe Henderson, Johnny Griffin, Stanley Turrentine, Joshua Redman e Branford Marsalis. Com um time deste o disco não poderia ter outro resultado, uma obra-prima.

Logo de saída, uma parceria entre Hargrove e Turrentine em “Stoppin'The Biscuit”, escrita pelo trompetista. Os dois voltam a se encontrar em “Wild Is Love”, composição dos anos 50, que aqui tem clima de bossa nova.

Além do trompete tradicional, Hargrove também ataca no flugelhorn ao lado do sax de Griffin, na romântica “When We Were One”, em “Once Forgotten”, com Chestnut roubando a cena, e em “Never Let Me Go”, com destaque para o solo de Whitaker.

Mas o grande momento do disco acontece ao lado de outro peso pesado do sax, Joe Henderson. Escute a suingada “Shade Of Jade” e a tranqüila ‘Serenity” e perceba o forte elo criado pelo sax de Henderson e o trompete de Hargrove. Para terminar, dois “novos” saxofonistas acompanham o trompetista. Branford Marsalis aparece em “Valse Hot” e Redman mostra sua técnica em “Acrosss The Pond”.

Na época deste lançamento, Hargrove era “apenas” um músico promissor. Hoje, uma década mais tarde, o trompetista é uma das principais figuras do jazz e apontado como um dos mais instigantes e completos jazzistas de sua geração.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Legado de Raphael Rabello ao violão é incontestável

Falar sobre a genialidade de Raphael Rabello é cair no lugar comum, mas invariavelmente inevitável.

Morto em 1995, aos 32 anos, o violonista fluminense foi um músico prodígio, influenciado pelo avô e pelos irmãos, Rafael mostrou muito precocemente sua habilidade no instrumento. Seu maior ídolo foi Dino 7 Cordas, com quem gravaria um disco em 1991.

Outro momento importante na carreira de Rafael foi o encontro com o maestro Radamés Gnattali, em 1977, quando Rafael tocava violão de 7 cordas no grupo Carioquinhas ao lado da irmã, Luciana (cavaquinho), e os músicos Paulo Magalhães Alves (bandolim), Mário Florêncio (pandeiro) e Téo Oliveira (violão de 6).

No livro Raphael Rabello: O Violão Em Erupção, biografia lançada em 2018, pela Editora 34, o jornalista Lucas Nobile conta o primeiro encontro de Rafael e Radamés. Segundo Nobile, Rafael estava em estúdio gravando com os Carioquinhas quando Radamés, por acaso, estava no mesmo local. O maestro foi chamado para ver Rafael em ação e chamou o jovem músico, na época com 15 anos, para uma conversa.


O jovem Raphael Rabello toca com o maestro Radamés Gnattali (Divulgação)

Radamés quis saber se o violonista sabia ler partitura e fazer harmonias. Rafael não respondeu, então Radamés pediu para que Rafael fosse estudar harmonia e depois o procurasse. E foi isso que Rafael fez. Dois anos após este encontro, os dois se reuniram e criaram o conjunto Camerata Carioca, que gravou o disco Tributo A Jacob Do Bandolim, em 1979.

Durante sua breve carreira, Raphael gravou 22 discos, dos quais 16 instrumentais, muitos deles acompanhando cantores do quilate de Elizeth Carsoso, Ney Matogrosso e Nelson Gonçalves, além dos discos em parceria com o saxofonista Paulo Moura, Romero Lubambo, Dino 7 Cordas e Radamés.

Um dos seus discos mais conhecidos é Todos os Tons, de 1992, um tributo ao maestro Tom Jobim, com participações do violonista espanhol Paco De Lucia, do baterista Wilson das Neves e do violoncelista Jaques Morelenbaum.

Em 2002, o disco póstumo Mestre Capiba é lançado. Raphael trabalhava na obra do compositor pernambucano quando faleceu. O disco traz grandes nomes da mpb, entre eles Chico Buarque, Maria Bethania, Caetano Veloso e Ney Matogrosso, todos acompanhados pelo violão de Rabello.

O legado de Raphael fica ainda mais claro com o lançamento do disco Um abraço no Raphael Rabello, da gravadora Acari. A iniciativa do tributo, lançado em 2012, ano em que o violonista completaria 50 anos, parte do violonista Rogério Caetano, que convidou vários músicos para gravarem composições inspiradas em Raphael.

Entre os instrumentistas que participam do álbum estão Yamandu Costa, Alessandro Penezzi, Hamilton de Holanda, Mauricio Carrilho e Marco Pereira.