segunda-feira, 9 de março de 2026

Somethin' Else

Como superar o disco mais vendido de toda a história do jazz chamado Kind of Blue, do trumpetista Miles Davis, lançaco em agosto de 1959? Talvez a palavra superar não seja a mais adequada diante do desafio quase que intransponível. Quase sete décadas depois, a obra-prima de Davis continua onipresente e referência no mundo do jazz.

Mas este texto não é sobre o trumpetista e seu mais bem sucedido disco, por outro lado, o disco em questão neste post também conta com a destreza e o incomparável talento de Davis. Somethin' Else, do saxofonista Cannonball Adderley, foi lançado em maio de 1958, ou seja, 17 meses antes de Kind of Blue, disco que contou com a participação de Adderley, ao lado de John Coltrane e do pianista Bill Evans.

Diante da proximidade e da presença de Davis e Adderley em ambos os álbuns, é difícil não lembrar de um quando se pensa no outro. O "problema" é que Somethin' acabou sucumbindo diante do colosso que Kind se tornou e, também, pela presença indispensável de Evans e Coltrane no álbum. Mas a escalação de Adderley para o disco também é uma constelação de craques: Davis, como coadjuvante de luxo, Art Blakey (bateria), Hank Jones (piano) e Sam Jones (baixo).


Já sobre o disco de Adderley, o único do saxofonista alto gravado pela Blue Note, há um pequeno "ensaio" escrito no site oficial de Davis que consegue "traduzir" de uma maneira simples e cirúrgia a música entregue no álbum de Adderley.

"Cada faixa de Somethin’ Else prospera em um caminho de comunicação distinto e, como resultado, tem algo a ensinar sobre como uma ideia claramente expressa, juntamente com o que poderia ser chamado de edição em tempo real, pode moldar uma improvisação. O tema da faixa-título é uma extensa troca de perguntas e respostas entre Davis e Adderley, mas, à medida que evolui, a seção rítmica participa da interação", destaca o texto.

O conteúdo do artigo salienta ainda que "para ouvir um mestre da conversa no jazz em seu auge, preste atenção aos acordes precisos e perfeitamente colocados que o pianista Hank Jones fornece para Adderley. E então ouça como o baixista Sam Jones e o baterista Art Blakey capturam algumas dessas respostas pianísticas simples e as transformam em combustível para uma agitação ainda maior. É o som de um circuito sendo criado no momento, criando braços, ramificações e novas direções à medida que percorre o palco".

Por fim, o texto diz que o que emerge "não é apenas o som de cinco músicos fazendo bem o seu trabalho, mas um grupo que se deleita em sua capacidade comum de galvanizar e moldar as ideias uns dos outros. Eles conseguem captar e trabalhar com elas em parte porque cada uma é apresentada com tamanha clareza e respeito. Os músicos podem não concordar em cada detalhe, mas suas interações são regidas pelo entendimento mútuo de que o fio condutor da conversa é precioso demais para permitir que exibicionismo barato atrapalhe a obra. Mesmo nas artes mais abstratas, a clareza importa".



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