segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Manu Katché - Neighbourhood

Por 14 anos o Guia de Jazz esteve no ar com a missão de aproximar os internautas ao jazz. Um dos tópicos mais visitados era o de dicas de CDs, no qual dezenas de discos eram indicados e resenhados por mim. Infelizmente, com o fim do site em setembro de 2015, todo esse acervo foi "perdido".

Mas não totalmente perdido. Além do livro Jazz ao Seu Alcance - que traz todo o conteúdo do guia (dicas de CDs, DVDs, livros, entrevistas e muito mais) - você encontrará quinzenalmente neste blog algumas dicas de CDs publicadas anteriormente no site Guia de Jazz.

Sempre que possível, ao final de cada resenha você encontrará vídeos do Youtube com algumas faixas do disco indicado para escutar. Boa leitura e audição. Veja outras dicas de CDs aqui


Manu Katché - Neighbourhood (2005)


O baterista Manu Katché não é exatamente um músico de jazz, mas isto não deve ser encarado como um problema, já que este francês de origem africana participou de dois importantes discos do mundo pop na década de 80, Nothing Like the Sun, do cantor Sting, e So, do ex-Genesis Peter Gabriel. Paralelamente ao seu emprego oficial, Katché também flerta com o fusion e o jazz experimental, como é o caso de Neighbourhood, segundo disco solo do baterista lançado em outubro de 2006 na Europa e que foi editado pela ECM nos Estados Unidos quatro meses depois.

Para acompanhá-lo, o baterista escalou um quarteto de responsabilidade. Na linha de frente estão o experiente saxofonista norueguês Jan Garbarek, com quem o baterista já gravou algumas vezes, e o aclamado trompetista polonês Tomasz Stanko. Completam o time os também poloneses Slawomir Kurkiewicz (baixo) e Marcin Wasilewski (piano). Katché acerta em cheio ao escalar o trio polonês liderado por Stanko. Seus trabalhos lançados pela ECM são de grande beleza e aqui não poderia ser diferente. Outro atrativo é poder ouvir Garbarek tocando “sax de verdade”. Nos últimos anos, ele tem investido em discos experimentais e seu sax acaba sendo ofuscado por sons minimalistas.


Baterista tocou com gigantes da música como Sting e Peter Gabriel

O CD começa tranquilo ao som de “November 99”, com o piano de Wasilewski dando boas-vindas ao ouvinte. Logo depois é a vez do sax de Garbarek aparecer em “Number One” e na funkeada “Lovely Walk”. O fusion também é a raiz das ótimas “No Rush”, com destaque para o trompete de Stanko, e “Take Off and Land”, na qual a parceria Garbarek e Wasilewski está em seu ponto máximo.

É claro que um momento mais introspectivo não poderia faltar em um disco que traz Jan Garbarek e Tomasz Stanko. O trompete brilha nas singelas “Lullaby” e “February Sun” e o sax tenor arrasa em “Good Influence” e “Rose”. Para fechar, “Miles Away”, uma homenagem a Miles Davis com uma interpretação irrepreensível de Katché e o trio polonês. Para quem não conhecia o baterista só resta uma coisa a dizer: “Muito prazer, monsieur Katché”.

MÚSICAS:

November 99
Number One
Lullaby
Good Influence
February Sun
No Rush
Lovely Walk
Take Off And Land
Miles Away
Rose

Ouça abaixo "Number One" e "Miles Away":



sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Sara Gazarek volta ousada e madura

Mais de uma década se passou desde o o lançamento do primeiro disco da cantora norte-americana Sara Gazarek.

De lá para cá, apesar de ser respeitada pela crítica especializada, Sara continua no segundo escalação, atrás de cantoras mais contemporâneas como Cécile McLorin Salvant, Esperanza Spalding, Lizz Wright, Cyrille Aimée e Gretchen Parlato.

É claro que o sucesso pode não ser o principal objetivo de um artista, mas não adianta você ter um trabalho de qualidade e não ser reconhecido por isso.

Não é uma questão de ego, mas sim uma recompensa mais do que merecida para um artista que doa boa parte de sua vida pelo desejo de expressar sua arte, com dedicação, formação e, principalmente, paixão pelo que faz.

Agora, Sara Gazarek parece ter se encontrado definitivamente. Com o lançamento do disco Thirsty Ghost, o sexto da carreira, a cantora deixou de lado canções "mais tolas" e mergulhou em um caldeirão sonoro que inclui Nick Drake, Sam Smith, Dolly Parton e Stevie Wonder. O resultado é um disco atrevido e pulsante.

Em entrevistas recentes, ela falou da importância do cantor Kurt Elling nesta mudança. "Após uma apresentação, Kurt conversou comigo e disse que eu tinha potencial para crescer artisticamente e que ficar limitada a ser uma cantora de standard não era o suficiente".


Sara Gazarek lança novo álbum, o primeiro produzido inteiramente pela cantora

A chacoalhada do veterano cantor foi crucial para a mudança de rumo e atitude de Sarah. Isso fica claro logo na primeira canção, "Never Will I Marry", com destaque para o teclado de Stu Mindeman e a bateria de Christian Euman. O tema mostra uma cantora consciente de sua capacidade e altiva para alçar voos mais perigosos. Na sequência, uma versão deliciosa de "I'm Not the Only One", sucesso mundial na voz do cantor Sam Smith.

Outras versões também mostram a procura de Sara por d istintos gêneros e épocas, com “River Man”, de Nick Drake (1969), “I Believe (When I Fall In Love It Will Be Forever)”, de Stevie Wonder, “Jolene”, de Dolly Parton e “Cocoon”, de Björk. Ainda no território de composições alheias, Sara oferece ao ouvinte uma bela versão cantada de uma composição do pianista Brad Mehldau, que aqui ganhou o nome de "Distant Storm", com a participação especial de Kurt Elling.

Quem também dá tempero ao disco é o pianista Larry Goldings, que toca em duas composições escritas em parceria com Sarah: “Easy Love” e “Gaslight District”. Para fechar, a cantora deixou o mais jazzístico tema do álbum: "Spinning Round", com direito da scat, solo de piano e um andamento rítmico alternando o tempo inteiro.

O que acontecerá com Sara Gazarek depois de Thirsty Ghost só o tempo dirá. Independentemente do resultado, para os mais atentos, ficará a certeza de que a cantora não é popular por falta de ousadia ou talento, mas, talvez, porque nem todos nesta vida foram forjados para alcançar a notoriedade ou mudar paradigmas. Quem sabe, não é mesmo?



















segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Blue World traz mais inéditas de Coltrane

Mais de meio século se passou desde a morte de John Coltrane até que uma nova descoberta chegasse ao público.

A novidade responde pelo nome de Blue World e inclui essencialmente versões alternativas de músicas já gravadas anteriormente pelo músico, entre elas, "Naima", "Village Blues", "Traneing In" e "Like Sonny".

O disco será lançado em 27 de setembro, pela gravadora Impulse!, quatro dias após o nascimento do saxofonista, que nasceu há 93 anos, em Hamlet, na Carolina do Norte (EUA). Coltrane morreu em 17 de julho de 1967, aos 40 anos de idade, vítima de câncer no fígado.


A compilação, cuja existência se desconhecia, foi gravada em junho de 1964 pelo quarteto clássico de John Coltrane - com McCoy Tyner no piano, Elvin Jones na bateria e Jimmy Garrison no baixo -, entre as gravações dos álbuns Crescent e A Love Supreme, no estúdio de Rudy Van Gelder, em Nova Jersey.


Elvin Jones, McCoy Tyner, John Coltrane e Jimmy Garrison

Os temas de Blue World, que faziam parte de uma sessão de gravações com 37 minutos, foram gravados pelo saxofonista para a trilha sonora do filme canadense Le Chat dans le Sac, a convite do diretor Gilles Groulx. Porém, segundo a National Public Radio, apenas dez minutos de gravações foram aproveitadas no filme.

“Blue World revela o progresso pessoal de Coltrane, bem como a consistência interativa e os detalhes sonoros que o quarteto clássico estabeleceu firmemente como a sua assinatura coletiva em 1964. Essa assinatura era tão segura e dramática, tão vigorosa e diferente do som que Coltrane tinha criado antes.



"É significativo que esta sessão de gravações - qualquer que tenha sido a principal força motriz - tenha acontecido entre [a criação de] dois dos álbuns mais expansivos e espiritualmente transcendentes de Coltrane, que iriam definir o tom do resto da sua carreira musical”, destacou a Impulse! em comunicado divulgado para a imprensa.

O primeiro single de Blue World é uma segunda versão alternativa do tema "Out of This World" (originalmente composta por Harold Arlen e Johnny Mercer). Uma outra versão de "Out of This World" foi incluída no álbum Coltrane (1962).

No ano passado, a Impulse! lançou um outro álbum perdido de John Coltrane, Both Directions At Once, que trouxe uma sessão de gravação em 1963 durante a qual Coltrane capitaneou o seu quarteto clássico.

Fonte: publicado originalmente no site do jornal Público, de Portugal.