segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

E lá se vai 2019

Impossível fazer uma retrospectiva sobre música, sem falar na morte de João Gilberto (foto), aos 88 anos, em 6 de julho. Considerado o pai da bossa nova, Gilberto levava uma vida reclusa no bairro do Leblon, na cidade do Rio de Janeiro.

Nos últimos anos, infelizmente, as notícias que chegavam sobre o cantor era sobre a disputa judicial entre seus filhos (Bebel e Marcelo) e sua ex-companheira (Maria do Céu).


Mas o legado do compositor de clássicos como "Bim Bom" e interpretações definitivas de temas compostos por Tom Jobim, entre eles, "Chega de Saudade", "Desafinado", "Garota de Ipanema" e "Só Danço Samba", está garantido para as novas gerações. Apesar da eterna briga judicial com a gravadora EMI, que impede o relançamento de seus primeiros discos, o mercado está cheio de bons registros do cantor, que nas últimas décadas não lançou novos álbuns. A importância de João foi ainda mais marcante com sua parceira ao lado do saxofonista Stan Getz, no premiado disco Getz/Gilberto, de 1964, que abriu o mercado norte-americano para a bossa nova.

Outra perda importante foi do compositor e pianista francês Michel Legrand, que morreu em janeiro, aos 86 anos. Conhecido por suas trilhas sonoras, entre elas, Summer of ’42 (1971) e The Thomas Crown Affair (1968), Legrand também tocou com grandes nomes do jazz como Miles Davis, John Coltrane, Bill Evans e Ben Webster. O jazz também ficou de luto com as mortes do vibrafonista Dave Samuels e do pianista Harold Mabern.

No cenário do jazz, o ano trouxe bons discos e o retorno de dois gigantes: os pianistas Abdullah Ibrahuim, com The Balance, e Ahmad Jamal, com Ballades. Destaque também para o volume 2 do disco formado pelo trio Chick Corea, Christian McBride e Brian Blade. Outro bom termômetro sobre os discos lançados em 2019 são os indicados ao Grammy 2020, divulgados em dezembro. Entre eles estão Melissa Aldana, Julian Lage, Branford Marsalis, Brad Mehldau, Joshua Redman e Chick Corea. Entre as vozes, destaques para os novos discos de Harry Connick Jr. Carmen Lundy, Catherine Russell, Tierney Sutton e Sara Gazarek.


Corea, McBride e Blade lançam a segunda parte do disco Trilogy


No mercado estrangeiro, dois brasileiros tiveram seus discos reverenciados pelas principais publicações do gênero: Eliane Elias e Antonio Adolfo. A pianista e cantora Eliane Elias está radicada nos Estados Unidos há três décadas e lançou o disco Love Stories pela gravadora Concord. Já o veterano pianista, arranjador e compositor carioca tem no currículo passagens ao lado de Elis Regina, Wilson Simonal, Leny Andrade, Carlos Lyra e Angela Ro Ro. O disco em questão, Samba Jazz Aley, é uma homenagem ao Beco das Garrafas, local icônico em Copacabana, na cidade do Rio de Janeiro, conhecido como o berço da bossa nova. No disco, o músico gravou temas de Tom Jobim, Johnny Alf, Edu Lobo, Baden Powell e João Donato.

2019 também trouxe registros inéditos de duas lendas do jazz: Miles Davis e John Coltrane. Do trompetista, foi lançado o disco Rubberband, que originalmente deveria ter sido o primeiro álbum do músico lançado pela gravadora Warner, no meio da década de 1980. De Coltrane, o tesouro foi chamado de Blue World, com gravações feitas em 1964, originalmente para a trilha sonora do filme Le Chat dans le Sac, de Gilles Groulx. Mas apenas 10 minutos foram usados no longa e agora, meio século depois, os fãs têm a oportunidade de ouvir Coltrane acompanhado por McCoy Tyner (piano), Jimmy Garrison (baixo) e Elvin Jones (bateria).

O ano marcou também os 50 anos da gravadoras alemã ECM, criada pelo produtor Manfred Eicher e lar de grandes nomes do jazz como Pat Metheny, Keith Jarrett, Egberto Gismonti e John Abercrombie. Quem também chegou a meio século em 2019 foi o festival de jazz de Nova Orleans, um dos mais ecléticos e democráticos festivais dos Estados Unidos. O ano também foi especialmente importante para o veterano saxofonista Wayne Shorter, que levou o Grammy de melhor disco instrumental com Emanon. Shorter também conquistou os prêmios de compositor, grupo e artista do ano na premiação anual do Jazz Journalists Association.

Para 2020, já estão confirmados os shows de Pat Metheny, Nnnenna Freelon, Lizz Wright e Take 6, todos beneficentes em prol da TUCCA (Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer). Os shows acontecerão na Sala São Paulo, na capital paulista.

Isso sem falar nas novas edições do festivais SESC Jazz, Rio Montreux Jazz, MIMO e Amazonas Jazz. Não podemos esquecer da programação das casas Jazz Nos Fundos, Blue Note e Bourbon Street Club, todas na capital paulista.

No cenário internacional, 2020 será marcado pelo centenário do pianista Dave Brubeck e do saxofonista Charlie Parker. A capa da edição de janeiro de 2020 da revista Downbeat (foto) traz, além de Parker e Brubeck, o baterista Art Blakey, que completou 100 anos em 11 de outubro de 2019.


A importância desses músicos será ovacionada por todo ano por meio de shows, discos e muito mais. O primeiro deles foi lançado ainda em 2019. O disco Bird at 100, da gravadora Smoke Sessions, traz os saxofonistas Vicente Herring, Bobby Watson e Gary Bartz tocando temas da carreira de Charlie Parker. Eles são acompanhados por David Kikoski (piano), Yasushi Nakamura (baixo) e Carl Allen (bateria).

O ano de 2020 também vai celebrar o centenário do trompetista Clark Terry, da pianista Marion McPartland, do percussionista Tito Puente, do multi-instrumentista Yusef Lateef, do saxofonista Paul Gonsalves, do baterista Shelly Manne, do acordeonista Art Van Damme e da cantora Peggy Lee.







quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Count Basic - Live

Por 14 anos o Guia de Jazz esteve no ar com a missão de aproximar os internautas ao jazz. Um dos tópicos mais visitados era o de dicas de CDs, no qual dezenas de discos eram indicados e resenhados por mim.

Infelizmente, com o fim do site em setembro de 2015, todo esse acervo foi "perdido". Mas não totalmente perdido.

Além do livro Jazz ao Seu Alcance, que traz todo o conteúdo do guia, com dicas de CDs, DVDs, livros, entrevistas e muito mais, você encontrará quinzenalmente neste blog algumas dicas de CDs publicadas anteriormente no site Guia de Jazz.

Sempre que possível, ao final de cada resenha você encontrará vídeos do Youtube com algumas faixas do disco indicado para escutar. Boa leitura e audição. Veja outras dicas de CDs aqui

Count Basic - Live (1997)


Nos anos 90, o cenário do jazz ganhou duas novas vertentes, a primeira, o smooth jazz, que traz um som mais pop, e a segunda, o acid jazz, que tem nos samples e nos metais a base de seu ritmo. Essas duas novas maneiras de tocar jazz só ajudaram o gênero a se atualizar e a trazer um novo público. Uma das bandas que mais se destacou neste novo cenário foi o Count Basic, um conjunto liderado pelo guitarrista austríaco Peter Legat e pela cantora norte-americana Keli Sae. Seu som pode ser comparado aos grupos ingleses Brand New Heavies e Incognito. Um bom início para conhecê-la é o disco gravado ao vivo em Viena, Count Basic Live.

Neste quarto CD, é possível ouvir toda a energia da banda de Peter Legat, o compositor das músicas e a base de todas as canções com sua guitarra wah-wah no habitat predileto do grupo, o palco. O disco é uma coletânea com músicas de vários álbuns lançados pelo grupo. O CD abre com a contagiante “Is It Real”. Logo depois, a instrumental “Sweet Luis” traz a sutileza de Legat na guitarra. Seu toque é uma mistura de George Benson com Lee Ritenour. Como todas as bandas, o Count Basic também tem o seu hit, “Joy and Pain”, uma levada com muito suingue e a voz afinada de Keli Sae. Outra grande canção é “Movin’ In the Right Direction”, nome de um dos discos da banda.

Em “Happy”, a cantora Sae aproveita o momento para apresentar a banda ao público, entre eles estão o baterista Dirk Erchinger, o trompetista Bumi Fian e o percussionista brasileiro Laurinho Bandeira. A banda brilha pra valer na faixa instrumental “Animal Print”, com destaque para o trombone de Christian Radovan e o baixo de Willi Langer. Kelli Sae ainda é destaque em “Got To Do” e “Jazz In the House”. É impossível não salientar a firmeza e o talento de Peter Legat e sua guitarra. Como um maestro, ele dá um show na singela melodia de “M.L. In the Sunshine”. É de arrasar.

Count Basic normalmente não agrada aos fãs tradicionais de jazz que têm um certo preconceito com o smooth jazz e o acid jazz. Mas não se deve simplesmente rotular este ou aquele som de bom ou ruim. É preciso, acima de tudo, ouvir a competência musical e a criatividade dos músicos. Neste quesito, e sem uma visão saudosista dos antigos mestres do jazz, Count Basic vai agradar a qualquer pessoa que tem como principal filosofia ouvir boa música.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Concursos descobrem novos talentos do jazz

Que os Estados Unidos é uma fonte inesgotável de músicos de jazz, isso ninguém duvida. A arte do jazz está espalhada em várias partes do mundo, mas é inegável que a terra do Tio Sam reúne a maior quantidade de jazzistas por metro quadrado do planeta.

Não é à toa que o país concentra grandes festivais de jazz, as mais importantes gravadoras, publicações especializadas, escolas de música renomadas (Juilliard e Berkleee) e clubes de jazz icônicos (Birdland e Village Vanguard).

Para manter seu celeiro de talentos sempre renovado, os Estados Unidos contam com dois concursos que se tornaram referência no país: Sarah Vaughan International Jazz Vocal Competition e Thelonious Monk Institute of Jazz International. A partir de 2018, a competição com o nome de Monk ganhou o nome de Hancock Competition, produzido pelo Herbie Hancock Institute of Jazz.

O concurso que traz o nome da cantora Sarah Vaughan foi criado em 2012 e é exclusivamente voltado para novas cantoras. Em suas oito edições, a competição teve entre suas vencedoras nomes como Cyrille Aimée, Jazzmeia Horn e Quiana Lynell. Em 2019, a vencedora foi Samara McLendon (foto acima), que nasceu no Bronx, em Nova York. Nesta última edição, entre os jurados estavam as cantoras Dee Dee Bridgewater e Jane Monheit e o baixista Christian McBride.

Na competição que agora leva o nome do pianista Herbie Hancock, a cada ano, um instrumento é destacado. Em 2018, por exemplo, o concurso foi exclusivamente entre pianistas. O vencedor foi o israelense Tom Oren.

A última edição que trouxe cantoras na disputa aconteceu em 2015, vencida por Jazzmeia Horn (foto) venceu. Em 2019, o instrumento escolhido foi a guitarra. O vencedor foi o russo Evgeny Pobozhiy.

Criado em 1987, o concurso já revelou nomes como Marcus Roberts (piano), Joshua Redman (sax), Chris Potter (sax), Jacky Terrasson (piano), Jane Monheit (cantora), Gretchen Parlato (cantora), Ambrose Akinmusire (trompete), Cécile McLorin Salvant (cantora) e Melissa Aldana (sax). No júri, feras como Herbie Hancock, Jason Moran, Patti Austin, Quincy Jones, Wayne Shorter e Ron Carter.

Veja todas as ganhadoras do Sarah Vaughan International Jazz Vocal Competition:


Cyrille Aimée
Jazzmeia Horn
Ashleigh Smith
Arianna Neikrug
Deelee Dubé
Quiana Lynell
Laurin Talese
Samara McLendon


Abaixo você vê uma entrevista com a cantora Samara McLendon, um dia após vencer o concurso, em novembro de 2019. Veja ainda o quarteto do saxofonista Eli Degibri, com a participação do pianista israelense Tom Oren, vencedor em 2018 do Hancock Competition, o guitarrista russo Evgeny Pobozhiy, vencedor em 2019 do Hancock Competition, e vídeos das cantoras Laurin Talese, Quiana Lynell, Deelee Dubé e Jazzmeia Horn.












quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Grammy 2020: os indicados

A lista dos indicados ao Grammy foi publicada no dia 20 de novembro. A premiação da 62ª edição acontecerá no dia 26 de janeiro de 2020, em Los Angeles. Ao todo são 84 categorias que englobam ritmos como blues, gospel, dance, rock, country, metal, folk, r&b, entre outros.

Abaixo você encontra os indicados na categoria jazz, que inclui melhor improvisação solo, melhor disco vocal, melhor disco instrumental, melhor disco de big band e melhor disco de jazz latino.

Neste ano, o Brasil concorre na categoria melhor disco de jazz latino com o álbum Sorte!: Music by John Firbury. O disco traz nos vocais a cantora carioca Thalma de Freitas (foto abaixo), acompanhada por Vitor Gonçalves (piano), John Patitucci (baixo), Chico Pinheiro (violão), Airto Moreira e Rogerio Boccato (percussão) e Duduka Da Fonseca (bateria). Os concorrentes da brasileira são Chick Corea & The Spanish Heart Band, Jazz At Lincoln Center Orchestra com Wynton Marsalis & Rubén Blades, David Sánchez e Miguel Zenón.

Outro brasileiro que pode conquistar o Grammy é o violonista paulista Diego Figueiredo. Ele concorre na categoria melhor arranjo instrumental e vocal pela música "Marry Me a Little", em parceria com a cantora francesa Cyrille Aimée. Diego participa de duas faixas do disco Move On: A Sondheim Adventure, lançado por Cyrille no início de 2019.

Na categoria melhor disco vocal, o destaque é a cantora Sara Gazarek, que lançou o aclamado disco Thirsty Ghost, e tenta deixar o "segundo escalão" das cantoras de jazz. Vencer o Grammy poderá ser o passo definitivo em sua carreira.

Na disputa com Sara estão as experientes Catherine Russell, com Alone Together e The Tierney Sutton Band, com Screenplay. Completam as indicações Esperanza Spalding, com 12 Little Spells, e Jazzmeia Horn, com Love & Liberation. Jazzmeia esteve recentemente no Brasil e tem sido considerada a grande revelação do jazz, com grandes chances de levar seu primeiro Grammy.

Outra curiosidade desta categoria é a falta de um representante masculino. Em 2019, por exemplo, entre os cinco indicados, três eram do sexo masculino. Nas duas últimas edições, na categoria melhor disco vocal, o prêmio ficou com a cantora Cécile McLorin Salvant. Saiba mais sobre o disco de Sara Gazarek na matéria publicada no blog do Blue Note clicando aqui.

Na categoria melhor disco de jazz, a academia indicou nomes consagrados nas últimas três décadas. São eles: o pianista Brad Mehldau, os saxofonistas Branford Marsalis e Joshua Redman, o baixista Christian McBride e o organista Joey DeFrancesco. Dos indicados, apenas Marsalis já levou um Grammy nesta categoria. Veterano em indicações, 10 ao todo, Joshua Redman lançou um dos mais belos álbum de jazz em 2019 (Come What May) e tem todos os requisitos para sair vencedor. Correndo por fora está o veterano Christian McBride com o ótimo New Jawn, lançado no fim de 2018. É a primeira vez em vários anos que os onipresentes Chick Corea e Wayne Shorter não estão indicados nesta categoria.

A categoria melhor improvisação solo destaca sempre um único tema pinçado de um disco. Desta vez, estão na briga o veterano trompetista Randy Brecker, com a música "Sozinho", do disco Rocks, o guitarrista Julian Lage, com "Tomorrow is the Question", do disco Love Hurts, a saxofonista chilena Melissa Aldana, com "Elsewhere", do disco Visions, e o saxofonista Branford Marsalis, com "The Windup", e o baixista Christian McBride, com "Sightseeing". Marsalis venceu nesta categoria em 2015. Além de Marsalis, outro favorito é Julian Lage, que recebeu sua quinta indicação e com grande chande de conquistar seu primeiro gramofone dourado.

Por fim, a categoria big band ou orquestra sempre oferece a oportunidade de revelar e apresentar orquestra menos conhecidas do grande público e, ao mesmo tempo, deixar claro que essa vertente do jazz continua ativa e ricamente representada por excelentes músicos que se juntam para fazer música de qualidade.

Esse é o exemplo da Terraza Big Band, que concorre pelo disco One Day Wonder. A orquestra toca semanalmente no clube de jazz Terraza 7, que fica na cidade de Nova York, e tem em sua direção Michael Thomas (sax) e Edward Perez (baixo). Sua principal característica é a mistura do jazz com ritmos latinos.

Outro destaque é o disco Triple Helix, comandada pela clarinetista israelense Anat Cohen. Dirigido por Oded Lev-Ari, o álbum oferece uma mescla de música erudita e jazz, com alguns momentos mais introspectivos e outros mais enérgicos. Um disco difícil, mas belíssimo.

Outro forte concorrente é o disco Hiding Out, do pianista Mike Holober acompanhado da The Gotham Jazz Orchestra. Com um belíssimo conjunto de saxes, trompetes e trombones, o disco oferece ao ouvinte um experiência sensorial. Destaque para a regravação de "Caminhos Cruzados", composta por Tom Jobim, com a participação do percussionista brasileiro Rogerio Boccato, que tocou na Orquestra Jazz Sinfônica do Estado de São Paulo. Outro forte candidato é o disco da jovem arranjadora e compositora japonesa, radicada nos Estados Unidos, Miho Hazama. o álbum Dancer in Nowhere (foto) oferece um diversidade sonora que agrada em cheio ao ouvinte que deseja ouvir um som de orquestra, mas com uma pegada mais contemporânea.

Melhor Improvisação Solo


ELSEWHERE
Melissa Aldana
Álbum: Visions

SOZINHO
Randy Brecker
Álbum: Rocks

TOMORROW IS THE QUESTION
Julian Lage
Álbum: Love Hurts

THE WINDUP
Branford Marsalis
Álbum: The Secret between the Shadow and the Soul

SIGHTSEEING
Christian McBride
Álbum: New Jawn

Álbum Vocal


THIRSTY GHOST
Sara Gazarek

LOVE & LIBERATION
Jazzmeia Horn

ALONE TOGETHER
Catherine Russell

12 LITTLE SPELLS
Esperanza Spalding

SCREENPLAY
The Tierney Sutton Band

Álbum Instrumental


IN THE KEY OF THE UNIVERSE
Joey DeFrancesco

THE SECRET BETWEEN THE SHADOW AND THE SOUL
Branford Marsalis Quartet

CHRISTIAN MCBRIDE'S NEW JAWN
Christian McBride

FINDING GABRIEL
Brad Mehldau

COME WHAT MAY
Joshua Redman Quartet

Álbum de Big Band


TRIPLE HELIX
Anat Cohen Tentet

DANCER IN NOWHERE
Miho Hazama

HIDING OUT
Mike Holober & The Gotham Jazz Orchestra

THE OMNI-AMERICAN BOOK CLUB
Brian Lynch Big Band

ONE DAY WONDER
Terraza Big Band

Álbum de Jazz Latino


ANTIDOTE
Chick Corea & The Spanish Heart Band

SORTE!: MUSIC BY JOHN FINBURY
Thalma de Freitas & Vitor Gonçalves

UNA NOCHE CON RUBÉN BLADES
Jazz At Lincoln Center Orchestra With Wynton Marsalis & Rubén Blades

CARIB
David Sánchez

SONERO: THE MUSIC OF ISMAEL RIVERA
Miguel Zenón






























terça-feira, 12 de novembro de 2019

Connick Jr. se rende a Cole Porter

Não é preciso datas comemorativas e outras artimanhas de marketing para lançar um disco em tributo a Cole Porter. O compositor norte-americano morreu na década de 1960, mas seu legado será eterno ao lado de outros gênios como Beethoven, Bach, Gershwin, Mozart e Duke Ellington.

Mas a pergunta que fica é: você compraria mais um disco para ouvir as mesmas canções que já escutou centenas de vezes com dezenas de intérpretes?

Antes de responder, dê uma chance ao novo disco do cantor Harry Connick Jr., chamado True Love: A Celebration of Cole Porter. As 13 faixas do álbum já podem ser ouvidas de graça no canal oficial do cantor no Youtube, sem precisar estar logado a nada e lembrar desta ou daquela senha. O ex-futuro Frank Sinatra, pelo menos era isso o que se imaginava quando Connick apareceu no fim da década de 1980, tem hoje 52 anos e uma carreira sólida como arranjador, cantor, pianista, compositor, ator e apresentador.

No decorrer de sua longa carreira, Connick sempre preservou suas raízes de Nova Orleans, cidade onde ele nasceu. Mas isso não o obrigou a ficar restrito a este universo, o que o levou a trilhar o caminho natural de um cantor de jazz, ou seja, gravar os grandes standards da música norte-americana. Mas, diferentemente de outros intérpretes, além de ser um belíssimo músico, Connick não caiu na armadilha de fazer discos temáticos, com exceção de discos natalinos, muito populares na terra do Tio Sam. Connick sempre flertou com a música pop, mas sempre manteve um pé no jazz. A exceção foi sua incursão pela Broadway, mas isso apenas mostrou o quanto sua inquietação musical o mantém ávido por criar e se envolver em distintos projetos.


Após duas décadas, o cantor volta a gravar com uma big band

Depois de 35 anos de carreira, finalmente, o cantor se rendeu ao apelo de gravar um songbook completo com obras de Cole Porter. O resultado, obviamente, foi um tiro certeiro. Além das famosas composições de Porter, o disco traz o cantor em ótima forma, cantando e tocando, e, em especial, os arranjos. Felizmente, Connick escolheu fazer um disco com arranjos criados para big band, o que deixou a música de Porter ainda mais vigorosa e atraente. Ao mesmo tempo, não deixou de fora as cordas e aquela atmosfera que lembra as orquestras de Nelson Riddle e Don Costa, mas sem deixar o meloso.

Para os fãs do cantor, poder ouvi-lo novamente acompanhado de uma big band é um alívio e uma deliciosa surpresa após tantos anos longe dos metais. No repertório, "Just One of Those Things", "In the Still of the Night", "Begin the Beguine", "All of You", "Anything Goes", "I Love Paris", entre outras. Além na onipresença da voz do cantor, que também fez a regência da orquestra durante as gravações, o disco abre espaço para belos solos de clarinete e trompete, em "I Love Paris", e de piano, na versão instrumental de "Begin the Beguine".

Em uma obra tão vasta, obviamente, grandes clássicos de Porter ficaram de fora, entre eles, "Night and Day", "I've Got You Under My Skin", "Every Time We Say Goodbye" e "Love for Sale". Isso, é claro, não compromete o belíssimo trabalho do cantor, por outro lado, em tempos de ouvir música em streaming e todas as plataformas de músicas digitais com milhões de músicas a um toque de distância, fica uma pergunta no ar: Por que continuar a lançar discos e, ainda por cima, com menos de 60 minutos de duração, em um formato que oferece a possibilidade de incluir 79 minutos de música?

O velho Connick Jr. poderia ter sido um pouco mais solidário com seu velho camarada CD, que definha cada vez mais e, em breve, será mais um item de colecionadores compulsivos ávidos pelo disquinho digital que reinou por quase duas décadas, lá no longínquo século XX. Que mancada, Harry.







quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Barron e Miller duelam em The Art of Piano

O encontro de dois gigantes do jazz sempre termina em coisa boa. A história está cheia de exemplos que comprovam isso. Basta lembrar da parceria Charlie Parker & Dizzy Gillespie, John Coltrane & Miles Davis, Ella Fitzgerald & Joe Pass e Herbie Hancock & Wayne Shorter.

Todos esses encontros aconteceram com instrumentos distintos, mas também temos belos discos de parcerias com instrumentos iguais, entre eles, os saxofonistas Coleman Hawkins & Lester Young, Lee Konitz & Warne Marsh, Eric Alexander & Vicent Herring, os guitarristas John Scofield & Pat Metheny e os pianistas Herbie Hancock & Chick Corea.

De olho nessa riquíssima história, a gravadora Sunnyside Records lança o álbum triplo The Art of Piano Duo - Live, com os pianistas Kenny Barron & Mulgrew Miller. Os discos trazem três shows distintos. Um gravado em 2005, em Marciac, na França, e dois registrados na Suíça, ambos em 2011, nas cidade de Genebra e Zurique. Sozinhos no palco, os dois pianistas mostram a fina arte do improviso. Em entrevista para divulgar o disco, Barron comentou como funciona a parceria com Miller.

"Nós nunca conversamos sobre a música. Nós nos sentávamos e determinávamos quem iria começar e pronto. Se eu soubesse [a música], apenas acenaria com a cabeça. Se eu não soubesse, balançaria a cabeça e ele tentaria outra. Nós apenas deixamos isso acontecer. Isso foi divertido, imaginando para onde poderíamos ir. Na maioria das vezes funcionava".

Com um repertório eclético, que passa por Benny Carter ("When Lights Are Low"), Rogers & Hart ("It Never Entered My Mind"), Jimmy Van Heusen ("It Could Happen To You"), Charlie Parker ("Yardbird Suite"), Duke Ellington ("I Got It Bad And That Ain't Good") e Thelonious Monk ("Blue Monk"), os experientes pianistas mostram a fina arte do improviso e muito entrosamento.

Mas para o ouvinte menos "treinado", em alguns momentos, o disco vai parecer um pouco confuso. É claro que os solos e improvisos estão garantidos, por outro lado, o excesso de notas poderá distrair o ouvinte e tornar a audição menos prazerosa. Mas nada que comprometa a essência do disco, com dois mestres do instrumento. O disco também traz, além dos duetos, temas solos, entre eles, "Song For Abdullah", com Barron, e "I Got It Bad And That Ain't Good", com Miller.

Miller faleceu em 2013, aos 57 anos, vítima de um derrame cerebral. Durante sua carreira, tocou com a orquestra de Duke Ellington, comandada por Mercer Ellington, filho de Duke, a cantora Betty Carter), o trompetista Woody Shaw e o baterista Art Blakey. Conheça também os discos Live at Yoshi Volume 1 e 2, com Miller acompanhado por Karriem Riggins (bateria) e Derrick Hodge (baixo), gravado ao vivo no clube californiano em 2003.



sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Bobby Scott - Slowly

Por 14 anos o Guia de Jazz esteve no ar com a missão de aproximar os internautas ao jazz. Um dos tópicos mais visitados era o de dicas de CDs, no qual dezenas de discos eram indicados e resenhados por mim.

Infelizmente, com o fim do site em setembro de 2015, todo esse acervo foi "perdido". Mas não totalmente perdido.

Além do livro Jazz ao Seu Alcance, que traz todo o conteúdo do guia, com dicas de CDs, DVDs, livros, entrevistas e muito mais, você encontrará quinzenalmente neste blog algumas dicas de CDs publicadas anteriormente no site Guia de Jazz.

Sempre que possível, ao final de cada resenha você encontrará vídeos do Youtube com algumas faixas do disco indicado para escutar. Boa leitura e audição. Veja outras dicas de CDs aqui

Bobby Scott - Slowly (1991)


Não adianta tentar fazer tudo ao mesmo tempo agora. A vida é curta e sabemos disso. Por mais que você dure 80 ou 90 anos, não há tempo suficiente para experimentar e descobrir tudo aquilo que a vida pode proporcionar. Na era da informação, que vai muito além do rádio, jornal, TV e livros, está situação piorou ainda mais e o ser humano percebeu que uma única vida é pouca.

É claro que não devemos encarar isto como um problema, pelo contrário, esta limitação natural da vida deve ser usada ao nosso favor, ou seja, como há pouco tempo devemos filtrar e selecionar da melhor maneira possível o que o cinema, teatro, literatura, TV e música têm a oferecer. Em resumo, seja criterioso.

Para ilustrar isto, vamos falar do pianista, compositor, cantor, produtor e arranjador norte-americano Bobby Scott, que morreu aos 63 anos, vítima de câncer, em 1990. A questão aqui não é porque Scott morreu prematuramente, o que não deixa de ser verdade, mas sim porque provavelmente 99% das pessoas vão passar por esta vida – um tanto curta sem ao menos escutar o voz aveludada e o toque preciso do piano deste grande músico.

Scott começou muito jovem e aos 11 anos já era profissional. Tocou com músicos de respeito como Louis Prima, Tony Scott e Gene Krupa. Com o musical A Taste Of Honey, ele levou um Grammy em 1962 e produziu artistas como Marvin Gaye e Aretha Franklin. Já no fim da vida, Scott voltou a gravar como líder e lançou dois discos For Sentimental Reasons e Slowly, álbum lançado após sua morte.

Apesar de póstumo, Slowly não é um disco triste, talvez melancólico, mas não soturno ou triste. A voz de Scott já não tem a mesma força, mas continua macia e afinada. Isto fica claro na faixa-título e em “Long About Now”, acompanhada apenas do piano, que brilha solo também em “This Is My Country” e na clássica “When I Fall In Love”.

Além de Scott, o disco traz o baixista Steve LaSpina, o baterista Paul Jost e os guitarristas Bucky Pizzarelli e Vinnie Bell. O quarteto aparece na insinuante “You Turned the Tables On Me”, na suingada “Hi Lily Hi Lo”, na deliciosa “Am I Blue” e em “Music Maestro Please”, com um solo arrasador de Scott.

A última dica, que não é de um CD, é que o tempo passa para todos nós. Não se preocupe com isto, apenas viva da melhor maneira possível e aproveite ao máximo o que a vida tem para lhe oferecer. Vida longa e próspera para todos nós e que Bobby Scott descanse em paz.







sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Dan Morgenstern eleva a arte da crítica

O papel da crítica tem sempre dois lados: positiva ou negativa. A questão é saber se a única intenção do crítico é realmente usar seus conhecimentos para ajudar o leitor a decidir se consumirá aquele produto (livro, disco, filme, peça, TV, celular etc) ou se sua crítica tem o objetivo de apenas aniquilar a pretensão do desavisado e exposto consumidor.

Essa pequena linha tênue sempre haverá em uma crítica. Mas o que pode fazer o leitor decidir para qual lado ele seguirá é a idoneidade de quem a escreve.


Esse capital chamado confiança é algo cada vez mais difícil de encontrar na era das redes sociais. O leitor/consumidor é bombardeado por pseudos críticos e gurus dos mais distintos assuntos, todos eles com suas verdades absolutas. Mas no meio deste tiroteio, sempre haverá um benfeitor por quem o leitor poderá confiar sua atenção e encontrar uma crítica contundente e, acima de tudo, coerente com as convicções adquiridas pelo crítico ao longo de sua vida.

É neste pequeno rol de notáveis que está o crítico alemão, radicado nos Estados Unidos, Dan Morgenstern, diretor do Instituto dos Estudos de Jazz da Universidade de Rutgers, em Nova Jersey (EUA) e membro do National Endowment for the Arts Jazz Master. Em outubro deste ano, ele completa 90 anos.

Morgenstern (na foto com Quincy Jones e Lena Horne) se auto-intitula um "advogado do jazz", ou seja, alguém que procura esclarecer os caminhos do jazz e de seus protagonistas para um leitor ávido por informação e carente de embasamento. Em resumo, Morgenstern é um apaixonado por aquilo que faz e compartilha seu conhecimento sem pedir nada em retribuição.

Durante seis décadas, o crítico escreveu diversos livros, entre eles Living With Jazz, e ganhou sete prêmios Grammy na categoria liner notes, ou seja, aquele texto que você encontra no encarte do CD. Além disso, foi editor da revista Down Beat entre 1967 e 1973, escreveu para diversos jornais e lecionou sobre a história do jazz em diversas universidades dos Estados Unidos

Em uma entrevista ao jornalista Marc Myers, do The Wall Street Journal, o crítico resumiu com clareza o seu ofício. "Um dos meus grandes prazeres como escritor é alguém me dizer que algo que eu escrevi (um livro, um artigo, anotações) o expôs a um determinado jazzista. Recentemente, alguém me procurou e falou que leu um artigo sobre um disco de Dexter Gordon que eu escrevi para a revista Down Beat, e que isso foi importante para ele criar um vínculo com jazz desde então".

Para a sorte dos leitores mais atentos, Morgenstern não é um caso isolado. Nomes como Gary Giddins, Ashley Kahn e Nat Hentoff são reconhecidos como críticos preocupados com a crítica construtiva e com a disseminação do conhecimento em seu mais nobre objetivo: abrir a mente das pessoas e deixá-las decidir por conta própria o que desejam ouvir, comer, beber, comprar ou, simplesmente, não consumir nada que um "estranho" que se auto-denomina crítico tenta dizer se é bom ou ruim.

Abaixo você encontra uma entrevista (dividida em dois vídeos) concedida por Dan Morgenstern ao programa Tony Guida’s NY, em 2017. Na ocasião, o crítico falou sobre o centenário da primeira gravação de jazz, que aconteceu oficialmente em 1917, com a Original Dixieland Jazz Band, e outras particularidades sobre os músicos de jazz, com destaque para Ella Fitzgerald e Louis Armstrong. O último vídeo é um passeio guiado por Morgenstern no Instituto dos Estudos de Jazz da Universidade de Rutgers, em Nova Jersey (EUA). Os vídeos publicados no Youtube estão em inglês, mas é possível ativar a legenda em inglês.

Veja a seguir seis discos indicados pelo crítico:

Charlie Parker's Savoy and Dial
Count Basie: Complete Original American Decca Recordings
Duke Ellington: Never No Lament: The Blanton-Webster Band
The Complete Ella Fitzgerald and Louis Armstrong
Art Tatum: The Complete Pablo Group Masterpieces
Billie Holiday and Lester Young: A Musical Romance

Abaixo estão os títulos dos discos que Morgenstern ganhou o Grammy na categoria liner notes:

2008: The Complete Louis Armstrong Decca Sessions (1935-1946) (Louis Armstrong)
2005: If You Got to Ask, You Ain't Got It! (Fats Waller)
1993: Portrait of the Artist As a Young Man 1923-1934 (Louis Armstrong)
1989: Brownie: The Complete EmArcy Recording (Clifford Brown)
1980: Master of the Keyboard (Erroll Garner)
1975: The Changing Face of Harlem: The Savoy Sessions (various artists)
1973: The Hawk Flies (Coleman Hawkins)
1972: God Is In the House (Art Tatum)




segunda-feira, 16 de setembro de 2019

The Brand New Heavies oferece mais do mesmo

Tirem as crianças da sala, afaste o sofá, pegue seu par e dance sem parar. É mais ou menos isso o que o ouvinte do novo disco da banda inglesa The Brand New Heavies (TBNH) terá vontade de fazer ao tocarem a primeira faixa "Beautiful", interpretada pela também britânica Beverley Knight, uma das convidadas de Andrew Levy (baixo) e Simon Bartholomew (guitarra), os cérebros por trás do TBNH.

Difícil acreditar que três décadas se passaram desde o primeiro disco do TBNH, que ao lado de Jamiroquai, US3, Incognito, Count Basic, Young Disciples e Brooklyn Funk Essentials apresentaram ao mundo o que foi rotulado de acid jazz, uma espécie de jazz misturando soul, funk e influências da disco music.

O velho som com influências de Chic, Chaka Khan, Issac Hayes e Stevie Wonder estão novamente ao alcance de uma nova geração de ouvintes. Simon e Andrew não perderam a mão e continuam fazendo qualquer plateia dançar o show inteiro. No novo álbum, chamado TBNH, eles escalaram uma constelação de belas vozes para darem alma a suas composições. Duas delas, conhecidas do antigos fãs: N’Dea Davenport (foto abaixo) e Siedah Garrett.

As duas cantoras são responsáveis pelos dois duas mais conhecidos da banda: Brother Sister (1994) e Shelter (1997), respectivamente interpretados por Davenport e Garrett. Aqui, elas aparecem em cinco das 14 faixas. Por mais que cada uma tenha seu jeito de cantar, fica evidente que Davenport continua sendo a vocalista que melhor se encaixou em toda a história da banda. Escute "Wired Up" e "Getaway" e veja como tudo se encaixa com perfeição.

Ela também brilha na versão de "These Walls", originalmente gravada por Kendrick Lamar e produzida por Mark Ronson, que tem no currículo trabalhos com Lady Gaga, Adele, Miley Cyrus e Bruno Mars. Mas é claro que a voz mais singela de Siedah não é desprezada, pelo contrário, ela cai perfeitamente na bela "It's My Destiny" e na levada soul "Just Believe in You", que criará um Déjà vu delicioso nos quarentões.

A aposta da vez de Andrew e Simon é a cantora Angela Ricci, que será responsável pelos vocais do grupo na turnê que fazem pelo Reino Unido. No disco, ela interpreta "Dance It Out" e "Stupid Love", duas canções com as marcar registradas do grupo: a linha de baixo marcada de Simon e a guitarra rítmica. Destaque também para a soul "Get On The Right Side". No fim deste post, você vê duas interpretações da música "Getaway", uma com Davenport e outra com Angela.


Formação atual: Andrew Levy (guitarra), Angela Ricci (voz) e Simon Bartholomew (baixo)

Outra novidade é ouvir o grupo com vozes masculinas no comando. Laville interpreta "Dontcha Wanna", com seu timbre idêntico a Sam Smith, e Jack Knight pega pesado na setentista "Little Dancer", com influência explícita de Chic, Tramps e, claro, o mestre Isaac Hayes. O disco ainda traz as vozes da experiente cantora norte-americana Angie Stone (Together) e da canadense Honey Larochelle (Heat).

O Brand New Heavies estreou no Brasil no extinto Free Jazz Festival, em 1995, e esteve por aqui pela última vez em 2013. Com o novo álbum, quem sabe eles não resolvem vir matar um pouco da saudade do público e, de quebra, ainda aproveitam o sol que brilha quase que o ano inteiro neste país tropical abaixo da linha do Equador. O convite está feito. Agora só precisamos de um ajudinha do Blue Note São Paulo. O que acham, rapazes?





terça-feira, 10 de setembro de 2019

New Orleans Jazz & Heritage Festival: 50 anos

Talvez não seja o melhor ou o maior, talvez não tenha as melhores atrações ou o público mais animado, mas ninguém coloca em dúvida que o festival New Orleans Jazz & Heritage, que acontece anualmente na cidade norte-americana de Nova Orleans, na Louisiana, é o festival mais eclético de todo planeta.

As más línguas vão dizer que a tal diversidade musical é apenas um chamariz para ganhar mais grana e desvirtuar a proposta de um festival genuíno de jazz.

Mas a verdade é que o festival, no decorrer dos anos, foi ficando cada vez maior e mais eclético e isso nunca foi um problema para os seus organizadores, que não titubearam em escalar nomes como Aerosmith, Pearl Jam, Bruce Springsteen, Aretha Franklin, Eric Clapton, Arcade Fire, Eagles, Robert Plant e Bob Dylan.

Em 2019, o festival completou 50 anos e sua principal atração forma os Rolling Stones, que acabaram adiando a apresentação por problemas de saúde do vocalista Mick Jagger. Mas a edição cinquentenária ainda tinha grandes nomes para oferecer, entre eles, Herbie Hancock, Buddy Guy, John Fogerty, Dianna Ross, Alanis Morissette, Santana, Al Green, Cécile McLorin Salvant, Tom Jones e Van Morrison.


Preservation Hall Jazz Band toca anualmente no festival

Ao mesmo tempo que recebe gigantes do pop, rock e r&b, o festival também mantém vivo sua principal espinha dorsal: a tradição da música de Nova Orleans. Conhecida como o berço do jazz, a cidade respira música 24h por dia, sete dias por semana. O festival é "apenas" o ápice deste caldeirão musical que tem o Mardi Grass como seu cartão-postal. Os desfiles que acontecem pelas ruas da cidade ao som de bandas tocando o jazz do início do século XX são acompanhados por milhares de pessoas.

Na última edição do festival, 12 palcos abrigaram centenas de atrações e a música tradicional da cidade, como sempre, teve seu espaço garantido nas vozes Trombone Shorty, Neville Brothers, Preservation Hall Jazz Band, The Dirty Dozen Brass Band, Keith Frank & the Soileau Zydeco Band e Sunpie & the Louisiana Sunspots.

Para festejar os 50 anos de festival, uma caixa com cinco CDs e 50 músicas gravadas ao vivo ao longo dos anos no festival foi lançada pela gravadora Smithsonian Folkways. Os registros históricos trazem nomes que se tornaram a alma e a personificação da música tocada no festival. Impossível não lembrar dos embaixadores do festival Allen Toussaint (1938-2015) e Dr. John (1941-2019), além de outras tradicionais atrações como Professor Longhair, The Neville Brothers, Preservation Hall Jazz Band e The Dirty Dozen Brass Band. Todos eles representados na caixa, que ainda inclui um livro com fotos e histórias sobre o festival. Você pode ouvir o disco na íntegra clicando aqui


Allen Toussaint, Cyril Neville e Dr. John: três dos mais icônicos músicos de Nova Orleans

Um dos momentos mais marcantes da seleção é o tema "Louisiana 1927”, interpretado pelo cantor John Boutte. A gravação foi feita em 2006, um ano após a devastação da cidade pelo furação Katrina, que deixou centenas de mortos e milhares de desabrigados, e o trompetista Terence Blanchard, nascido em Nova Orleans e um dos grandes incentivadores da cidade pelo mundo, com a música "A Streetcar Named Desire".

O mosaico musical do festival está representado com a rainha do soul Irma Thomas, nos temas "Old Rugged Cros" e "Ruler of My Heart", nas bandas cajun The Savoy Family Cajun Band, Bruce Daigrepont e BeauSoleil, nas vozes gospel de Zion Harmonizers e Johnson Extension, no zydeco de Boozoo Chavis e Buckwheat Zydecoe, e nos bluseiros Kenny Neal, Clarence Gatemouth Brown e Sonny Landreth.


Fairgrounds, o hipódromo local, abriga os diversos palcos do festival

Destaque também para os cantores Tommy Ridgley e Deacon John, um dos muitos interpretes que tiveram o privilégio de ser acompanhado pelo saudoso pianista Allen Toussaint. O disco fecha com um emocionante interpretação de "Amazing Grace/One Love", com o grupo The Neville Brothers.

As grandes ausências da caixa, que evidentemente priorizou músicos locais, são gravações com os membros do clã Marsalis, capitaneado pelo pai Ellis (piano), e os irmãos Wynton (trompete) e Branford (sax). Quem também faz falta são o pianista Harry Connick Jr., nascido em Nova Orleans, B.B. King, que tocou várias vezes no festival, além do lendário Fats Domino, que participou das primeiras edições do evento.

Para comemorar os 50 anos, a organização do festival criou um poster imitando a famosa capa do disco Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, que completou 50 anos de lançamento em 2017. Na versão New Orleans Jazz & Heritage, estão retratados músicos e pessoas que fizeram ou fazem a história do festival neste meio século de existência.

Entre os músicos retratados no ilustração estão Louis Armstrong, Allen Toussaint, Dr. John, Professor Longhair, Harry Connick Jr., além de duas estátuas representando dois dos mais importantes músicos da história de Nova Orleans: Jelly Roll Morton (1890-1941) e Buddy Bolden (1877-1931). Para saber os nomes de todos os músicos, clique aqui.


Ilustração traz figuras icônicas da história do festival de Nova Orleans


















segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Manu Katché - Neighbourhood

Por 14 anos o Guia de Jazz esteve no ar com a missão de aproximar os internautas ao jazz. Um dos tópicos mais visitados era o de dicas de CDs, no qual dezenas de discos eram indicados e resenhados por mim. Infelizmente, com o fim do site em setembro de 2015, todo esse acervo foi "perdido".

Mas não totalmente perdido. Além do livro Jazz ao Seu Alcance - que traz todo o conteúdo do guia (dicas de CDs, DVDs, livros, entrevistas e muito mais) - você encontrará quinzenalmente neste blog algumas dicas de CDs publicadas anteriormente no site Guia de Jazz.

Sempre que possível, ao final de cada resenha você encontrará vídeos do Youtube com algumas faixas do disco indicado para escutar. Boa leitura e audição. Veja outras dicas de CDs aqui


Manu Katché - Neighbourhood (2005)


O baterista Manu Katché não é exatamente um músico de jazz, mas isto não deve ser encarado como um problema, já que este francês de origem africana participou de dois importantes discos do mundo pop na década de 80, Nothing Like the Sun, do cantor Sting, e So, do ex-Genesis Peter Gabriel. Paralelamente ao seu emprego oficial, Katché também flerta com o fusion e o jazz experimental, como é o caso de Neighbourhood, segundo disco solo do baterista lançado em outubro de 2006 na Europa e que foi editado pela ECM nos Estados Unidos quatro meses depois.

Para acompanhá-lo, o baterista escalou um quarteto de responsabilidade. Na linha de frente estão o experiente saxofonista norueguês Jan Garbarek, com quem o baterista já gravou algumas vezes, e o aclamado trompetista polonês Tomasz Stanko. Completam o time os também poloneses Slawomir Kurkiewicz (baixo) e Marcin Wasilewski (piano). Katché acerta em cheio ao escalar o trio polonês liderado por Stanko. Seus trabalhos lançados pela ECM são de grande beleza e aqui não poderia ser diferente. Outro atrativo é poder ouvir Garbarek tocando “sax de verdade”. Nos últimos anos, ele tem investido em discos experimentais e seu sax acaba sendo ofuscado por sons minimalistas.


Baterista tocou com gigantes da música como Sting e Peter Gabriel

O CD começa tranquilo ao som de “November 99”, com o piano de Wasilewski dando boas-vindas ao ouvinte. Logo depois é a vez do sax de Garbarek aparecer em “Number One” e na funkeada “Lovely Walk”. O fusion também é a raiz das ótimas “No Rush”, com destaque para o trompete de Stanko, e “Take Off and Land”, na qual a parceria Garbarek e Wasilewski está em seu ponto máximo.

É claro que um momento mais introspectivo não poderia faltar em um disco que traz Jan Garbarek e Tomasz Stanko. O trompete brilha nas singelas “Lullaby” e “February Sun” e o sax tenor arrasa em “Good Influence” e “Rose”. Para fechar, “Miles Away”, uma homenagem a Miles Davis com uma interpretação irrepreensível de Katché e o trio polonês. Para quem não conhecia o baterista só resta uma coisa a dizer: “Muito prazer, monsieur Katché”.

MÚSICAS:

November 99
Number One
Lullaby
Good Influence
February Sun
No Rush
Lovely Walk
Take Off And Land
Miles Away
Rose

Ouça abaixo "Number One" e "Miles Away":



sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Sara Gazarek volta ousada e madura

Mais de uma década se passou desde o o lançamento do primeiro disco da cantora norte-americana Sara Gazarek.

De lá para cá, apesar de ser respeitada pela crítica especializada, Sara continua no segundo escalação, atrás de cantoras mais contemporâneas como Cécile McLorin Salvant, Esperanza Spalding, Lizz Wright, Cyrille Aimée e Gretchen Parlato.

É claro que o sucesso pode não ser o principal objetivo de um artista, mas não adianta você ter um trabalho de qualidade e não ser reconhecido por isso.

Não é uma questão de ego, mas sim uma recompensa mais do que merecida para um artista que doa boa parte de sua vida pelo desejo de expressar sua arte, com dedicação, formação e, principalmente, paixão pelo que faz.

Agora, Sara Gazarek parece ter se encontrado definitivamente. Com o lançamento do disco Thirsty Ghost, o sexto da carreira, a cantora deixou de lado canções "mais tolas" e mergulhou em um caldeirão sonoro que inclui Nick Drake, Sam Smith, Dolly Parton e Stevie Wonder. O resultado é um disco atrevido e pulsante.

Em entrevistas recentes, ela falou da importância do cantor Kurt Elling nesta mudança. "Após uma apresentação, Kurt conversou comigo e disse que eu tinha potencial para crescer artisticamente e que ficar limitada a ser uma cantora de standard não era o suficiente".


Sara Gazarek lança novo álbum, o primeiro produzido inteiramente pela cantora

A chacoalhada do veterano cantor foi crucial para a mudança de rumo e atitude de Sarah. Isso fica claro logo na primeira canção, "Never Will I Marry", com destaque para o teclado de Stu Mindeman e a bateria de Christian Euman. O tema mostra uma cantora consciente de sua capacidade e altiva para alçar voos mais perigosos. Na sequência, uma versão deliciosa de "I'm Not the Only One", sucesso mundial na voz do cantor Sam Smith.

Outras versões também mostram a procura de Sara por d istintos gêneros e épocas, com “River Man”, de Nick Drake (1969), “I Believe (When I Fall In Love It Will Be Forever)”, de Stevie Wonder, “Jolene”, de Dolly Parton e “Cocoon”, de Björk. Ainda no território de composições alheias, Sara oferece ao ouvinte uma bela versão cantada de uma composição do pianista Brad Mehldau, que aqui ganhou o nome de "Distant Storm", com a participação especial de Kurt Elling.

Quem também dá tempero ao disco é o pianista Larry Goldings, que toca em duas composições escritas em parceria com Sarah: “Easy Love” e “Gaslight District”. Para fechar, a cantora deixou o mais jazzístico tema do álbum: "Spinning Round", com direito da scat, solo de piano e um andamento rítmico alternando o tempo inteiro.

O que acontecerá com Sara Gazarek depois de Thirsty Ghost só o tempo dirá. Independentemente do resultado, para os mais atentos, ficará a certeza de que a cantora não é popular por falta de ousadia ou talento, mas, talvez, porque nem todos nesta vida foram forjados para alcançar a notoriedade ou mudar paradigmas. Quem sabe, não é mesmo?



















segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Blue World traz mais inéditas de Coltrane

Mais de meio século se passou desde a morte de John Coltrane até que uma nova descoberta chegasse ao público.

A novidade responde pelo nome de Blue World e inclui essencialmente versões alternativas de músicas já gravadas anteriormente pelo músico, entre elas, "Naima", "Village Blues", "Traneing In" e "Like Sonny".

O disco será lançado em 27 de setembro, pela gravadora Impulse!, quatro dias após o nascimento do saxofonista, que nasceu há 93 anos, em Hamlet, na Carolina do Norte (EUA). Coltrane morreu em 17 de julho de 1967, aos 40 anos de idade, vítima de câncer no fígado.


A compilação, cuja existência se desconhecia, foi gravada em junho de 1964 pelo quarteto clássico de John Coltrane - com McCoy Tyner no piano, Elvin Jones na bateria e Jimmy Garrison no baixo -, entre as gravações dos álbuns Crescent e A Love Supreme, no estúdio de Rudy Van Gelder, em Nova Jersey.


Elvin Jones, McCoy Tyner, John Coltrane e Jimmy Garrison

Os temas de Blue World, que faziam parte de uma sessão de gravações com 37 minutos, foram gravados pelo saxofonista para a trilha sonora do filme canadense Le Chat dans le Sac, a convite do diretor Gilles Groulx. Porém, segundo a National Public Radio, apenas dez minutos de gravações foram aproveitadas no filme.

“Blue World revela o progresso pessoal de Coltrane, bem como a consistência interativa e os detalhes sonoros que o quarteto clássico estabeleceu firmemente como a sua assinatura coletiva em 1964. Essa assinatura era tão segura e dramática, tão vigorosa e diferente do som que Coltrane tinha criado antes.



"É significativo que esta sessão de gravações - qualquer que tenha sido a principal força motriz - tenha acontecido entre [a criação de] dois dos álbuns mais expansivos e espiritualmente transcendentes de Coltrane, que iriam definir o tom do resto da sua carreira musical”, destacou a Impulse! em comunicado divulgado para a imprensa.

O primeiro single de Blue World é uma segunda versão alternativa do tema "Out of This World" (originalmente composta por Harold Arlen e Johnny Mercer). Uma outra versão de "Out of This World" foi incluída no álbum Coltrane (1962).

No ano passado, a Impulse! lançou um outro álbum perdido de John Coltrane, Both Directions At Once, que trouxe uma sessão de gravação em 1963 durante a qual Coltrane capitaneou o seu quarteto clássico.

Fonte: publicado originalmente no site do jornal Público, de Portugal.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Chrissie Hynde mergulha nos standards

Sempre que um artista pop resolve entrar no jazz fica a impressão de que alguma coisa está fora da ordem. Para os mais eloquentes, a migração de gênero é coisa de oportunista e não deve ser levada a sério. Apesar da gritaria, isso tem acontecido desde sempre, mas o caso mais gritante foi a série de quatro disco The Great American Songbook, do cantor Rod Stewart, no início dos anos 2000.

O veterano roqueiro pegou os grandes standards da música norte-americana compostos por Cole Porter, George Gershwin, Rodgers & Hart, Harold Arlen e Irvin Berlin, acompanhado por uma orquestra, e soltou sua voz rouca. O resultado foi um sucesso estrondonso, apesar de toda a reclamação.

Ele não foi o primeiro a fazer isso, uma década antes, Robert Palmer e Diana Ross também gravaram belos discos com orquestra. A mesma fórmula também foi usada por Bryan Ferry, Michael Bubble, Michael Bolton e, mais recentemente, pela cantora Annie Lennox, que lançou o disco Nostalgia pela prestigiada gravadora de jazz Blue Note.

Toda essa introdução nos remete a mais um disco com a mesma pegada. Desta vez, a "usurpadora" é uma senhora de 67 anos que responde pelo nome de Chrissie Hynde, também conhecida como a voz do grupo The Pretenders, que fez muito sucesso na década de 1980. O disco Valve Bone Woe traz canções compostas por Brian Wilson (the Beach Boys), Hoagy Carmichael, John Coltrane, Nick Drake, Ray Davies, Rodgers & Hammerstein e Tom Jobim, tudo acompanhado pelo the Valve Bone Woe Ensemble.

Antes que comecem a apedrejar Chrissie, que há muito tempo não lança nada relevante, é importante salientar que sua voz caiu muito bem em canções imortalizados por Nina Simone, Billy Holiday e Nancy Wilson. O cartão de vista é "How Glad I Am", uma bela balada que fez grande sucesso com Nancy Wilson, mas aqui tem como destaques naipes de metais e uma guitarra muito bem postada.


Aos 67 anos, Chrissie Hynde lança seu segundo disco solo longe do The Pretenders


E o que dizer do clássico "Caroline, No", do disco Pet Sounds, dos Beach Boys? Mais uma vez, a voz de Chrissie mostra-se acertada e o arranjo oferece pitadas de dub que deixam a melodia ainda mais bela. Em "You Don't Know What Love Is", a melancolia toma conta de Chrissie e do ouvinte.

Com "Wild Is The Wind" e "Absent Minded Me", gravadas respectivamente por Nina Simone e Barbra Streisand, Chrissie deixa claro que o repertório priorizou temas mais femininos. Mas isso não a impediu de incluir "Once I Loved", de Tom Jobim, "I Get Along Without You Very Well", famosa na voz de Chet Baker, "River Man", de Nick Drake, e "No Return", dos The Kinks. O jazz aparece "de verdade" em "Naina", de John Coltrane, e a instrumental "Meditation on a Pair of Wire Cutters, de Charles Mingus.

No último dia 6 de julho, no mitológico The Hollywood Bowl, em Los Angeles, California (EUA), Chrissie apresentou ao vivo o repertório de seu novo disco, acompanhada por uma grande orquestra. O resultado pode não ter sido brilhante, pois o local se mostrou inadequado para esse tipo de canção, mas ficou evidente que a cantora colherá bons frutos desta sua introdução ao jazz. Mas fica aqui um conselho de amigo, assim como fez neste show, inclua sempre alguns clássicos do Pretenders no repertório. É bom não cutucar a onça com vara curta.











terça-feira, 13 de agosto de 2019

Pat Metheny - Secret Story

Por 14 anos o Guia de Jazz esteve no ar com a missão de aproximar os internautas ao jazz. Um dos tópicos mais visitados era o de dicas de CDs, no qual dezenas de discos eram indicados e resenhados por mim.

Infelizmente, com o fim do site em setembro de 2015, todo esse acervo foi "perdido". Mas não totalmente perdido.

Além do livro Jazz ao Seu Alcance, que traz todo o conteúdo do guia, com dicas de CDs, DVDs, livros, entrevistas e muito mais, você encontrará quinzenalmente neste blog algumas dicas de CDs publicadas anteriormente no site Guia de Jazz.

Sempre que possível, ao final de cada resenha você encontrará vídeos do Youtube com algumas faixas do disco indicado para escutar. Boa leitura e audição. Veja outras dicas de CDs aqui

Pat Metheny - Secret Story (1992)

A trajetória do guitarrista Pat Metheny começou há quase meio século, na distante década de 1970, quando chamou a atenção do vibrafonista Gary Burton, que o escalou para ser seu pupilo. Desde então, Metheny se transformou em um dos mais inventivos e festejados músicos do jazz. Seu toque pessoal e sua inquietação musical o levaram a distintos caminhos musicais e fizeram do músico um verdadeiro alquimista sonoro.

Solo, elétrico, acústico, em trio, em quarteto, com orquestra, não importa, a genialidade do guitarrista pode ser provada em todos os formatos e sem qualquer contraindicação. Desde sua estreia na gravadora ECM, em 1976, Metheny tocou com dezenas de músicos e imortalizou sua guitarra sintetizada dentro do jazz fusion.

Com os discos Offramp (1982),The Falcon And The Snowman (1985), Still Life Talking (1987), Zero Tolerance for Silence (1994), Orchestrion (2010) ou ao lado de Charlie Haden, John Scofield, Ornette Coleman, Brad Mehldau e Chris Potter, Metheny não poupou esforços para traduzir em música tudo aquilo que tinha em mente.

Entre os discos mais interessantes está Secret Story (1992), que poderia muito bem ter sido a trilha sonora de um filme. Ao todo, são mais de 80 músicos, incluindo a Orquestra de Londres, conduzida por Jeremy Lubbock, os percussionistas brasileiros Armando Marçal e Naná Vasconcelos, o veterano gaitista Toots Thielemans, além dos velhos camaradas da Pat Metheny Band, Paul Wertico (bateria), Steve Rodhy (baixo) e Lyle Mays (piano). Em 2017, uma versão estendida foi lançada. A novidade são cinco faixas gravadas na mesma época, mas que acabaram ficando fora do disco original.

A sonoridade criada aqui é intensa e envolvente. Logo de saída aparece "Above The Treetops", com Metheny solando no violão entre o coral de voz Cambodian Royal Palace. O som nos leva diretamente às trilhas do grego Vangelis. O chamado "som de Pat Metheny" aparece por inteiro em "Facing West", uma das poucas faixas com a participação de Mays no piano. O clima de trilha sonora volta com tudo na singela "Cathedrak In a Suitcase".

Em "Fiding and Believing", com 10 minutos de duração, o vocal de Mark Ledford dá o tom de um tema cheio de nuances e surpresas. Durante a turnê deste disco, um jogo de luzes muito bem sacado é usado neste música. Confira no vídeo abaixo a apresentação completa do show deste álbum gravado em New Brunswick, em Nova Jersey (EUA).

Os dois temas mais "simples" são "Sunlight", uma balada pop, e a delicada "Always and Forever", com participação de Toots Thielemans. Em "See the World", o velho Metheny está por completo. Suas frases rápidas e precisas, estão em perfeita sintonia com a bateria sempre imprescindível de Wertico.


Contra-capa do disco lançado pela gravadora Geffen

Outro momento singular acontece na singela "Antonia", com Metheny tocando guitarra e acordeon sintetizados. O mesmo acontece com "Tell Her You Saw Me", que traz um dueto de guitarra e harpa, tudo com a Orquestra de Londres fazendo o pano de fundo, e "River Rain", com sete minutos de duração e a perfeita fusão entre a guitarra de Metheny e a percussão de Marçal.

Diante de um álbum tão forte e delicado ao mesmo tempo, não poderia faltar um tema épico. E é assim mesmo que deve ser rotulado "The Truth Will Always Be", com nove minutos de duração. Mais uma vez, a bateria de Wertico faz toda a diferença dentro de um tema que vai criando vida a cada minuto. O arranjo envolve o ouvinte de uma maneira única.

Quando você percebe, já está completamente entorpecido e hipnotizado pelo tema. No meio da canção, quase como um grito de socorro, a guitarra sintetizada de Metheny corta o silêncio com um solo arrebatador. A catarse é inevitável e a expectativa é completamente superada.

Com Secret Story, Pat Metheny provou mais uma vez que não há limite para sua guitarra e sua mente musical. Hoje, aos 65 anos de idade, o velho guitarrista oferece aos seus fãs, a cada disco, um novo desafio e a garantia de que até o fim de seus dias, ele terá sua guitarra em punho para provocar as mais distintas sensações em seu público.













sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Ressuscitando Miles

Passa ano e entra ano, e a figura onipresente de Miles Davis está sempre "assombrando" o mundo do jazz. É claro que isso não é uma crítica, pelo contrário, Miles fez por merecer essa devoção.

Mas é fato que muitos ainda faturam com o músico de jazz mais importante da história ao lado de Duke Ellington, Charlie Parker, Louis Armstrong e John Coltrane. Neste ano, três lançamentos voltam a "ressuscitar" o trompetista norte-americano que morreu em 1991, aos 65 anos.

O primeiro é o lançamento do vinil duplo do disco Complete Birth Of The Cool, de 1957. As gravações foram feitas entre 1949-1950, com a participação de Gerry Mulligan, Lee Konitz, Max Roach, John Lewis e os arranjos de Gil Evans.

A versão estendida conta com uma apresentação ao vivo gravada no The Royal Roost, nos dias 4 e 18 de setembro de 1948.

Outro lançamento é o disco inédito Rubberband (foto abaixo), gravado originalmente em 1985, o que seria a estreia do trompetista na gravadora Warner. Mas o disco acabou engavetado e "substituído" pelo álbum Tutu. A nova versão de Rubberband traz a participação das cantoras Lalah Hathaway, Ledisi e Medina Johnson. Originalmente, o disco teria a participação de Chaka Khan e Al Jarreau. Mas isso acabou não acontecendo.

A última preciosidade de Miles para 2019 é o documentário Miles Davis: Birth of the Cool, do aclamado documentarista Stanley Nelson. A estreia aconteceu no festival Sundance, em janeiro, e foi muito elogiado pela crítica.

Segundo o diretor, além de fotos inéditas e gravações nunca antes ouvidas, o documentário entrevista a viúva de Miles, Frances Davis, além de vários músicos, entre eles, Herbie Hancock, Santana e Ron Carter.

Além disso, o ator Carl Lumbly narra, como se fosse o próprio Miles, trechos da autobiografia do músico, deixando o documentário ainda mais atraente e pessoal.

Vale lembrar que este ano comemora-se os 60 anos do lançamento do disco Kind of Blue, no dia 17 de agosto de 1959. Considerado um divisor de água dentro do jazz, o disco traz o trompetista ao lado de John Coltrane (sax), Julian Cannonball Adderley (sax), Paul Chambers (baixo), Bill Evans (piano) e Wynton Kelly (piano), Jimmy Cobb (bateria) .

Oficialmente, não há nada programado para marcar essa importante data no calendário do jazz. Para quem quer saber mais sobre o cultuado disco, procure os livros Kind of Blue, de Richard Williams, da editora Casa da Palavra, e Kind of Blue: a história da obra prima de Miles Davis, de Ashley Kahn, da editora Barracuda. Como foram lançados faz um bom tempo, não será difícil encontrar em um sebo perto de você. Vale a pena a leitura.

O trompetista também virou filme em 2016, com o ator Don Cheadle fazendo o papel do músico, além de estrear na direção.  Miles Ahead não conta a história cronológica de Davis. O diretor preferiu pinçar alguns pontos de sua trajetória e enfatizar como a genialidade do músico trazia dificuldade para sua vida ao mesmo tempo que o tornou um dos músicos mais influentes do século XX.

LP duplo do disco Complete Birth Of The Cool, originalmente lançado em 1957