segunda-feira, 16 de setembro de 2019

The Brand New Heavies oferece mais do mesmo

Tirem as crianças da sala, afaste o sofá, pegue seu par e dance sem parar. É mais ou menos isso o que o ouvinte do novo disco da banda inglesa The Brand New Heavies (TBNH) terá vontade de fazer ao tocarem a primeira faixa "Beautiful", interpretada pela também britânica Beverley Knight, uma das convidadas de Andrew Levy (baixo) e Simon Bartholomew (guitarra), os cérebros por trás do TBNH.

Difícil acreditar que três décadas se passaram desde o primeiro disco do TBNH, que ao lado de Jamiroquai, US3, Incognito, Count Basic, Young Disciples e Brooklyn Funk Essentials apresentaram ao mundo o que foi rotulado de acid jazz, uma espécie de jazz misturando soul, funk e influências da disco music.

O velho som com influências de Chic, Chaka Khan, Issac Hayes e Stevie Wonder estão novamente ao alcance de uma nova geração de ouvintes. Simon e Andrew não perderam a mão e continuam fazendo qualquer plateia dançar o show inteiro. No novo álbum, chamado TBNH, eles escalaram uma constelação de belas vozes para darem alma a suas composições. Duas delas, conhecidas do antigos fãs: N’Dea Davenport (foto abaixo) e Siedah Garrett.

As duas cantoras são responsáveis pelos dois duas mais conhecidos da banda: Brother Sister (1994) e Shelter (1997), respectivamente interpretados por Davenport e Garrett. Aqui, elas aparecem em cinco das 14 faixas. Por mais que cada uma tenha seu jeito de cantar, fica evidente que Davenport continua sendo a vocalista que melhor se encaixou em toda a história da banda. Escute "Wired Up" e "Getaway" e veja como tudo se encaixa com perfeição.

Ela também brilha na versão de "These Walls", originalmente gravada por Kendrick Lamar e produzida por Mark Ronson, que tem no currículo trabalhos com Lady Gaga, Adele, Miley Cyrus e Bruno Mars. Mas é claro que a voz mais singela de Siedah não é desprezada, pelo contrário, ela cai perfeitamente na bela "It's My Destiny" e na levada soul "Just Believe in You", que criará um Déjà vu delicioso nos quarentões.

A aposta da vez de Andrew e Simon é a cantora Angela Ricci, que será responsável pelos vocais do grupo na turnê que fazem pelo Reino Unido. No disco, ela interpreta "Dance It Out" e "Stupid Love", duas canções com as marcar registradas do grupo: a linha de baixo marcada de Simon e a guitarra rítmica. Destaque também para a soul "Get On The Right Side". No fim deste post, você vê duas interpretações da música "Getaway", uma com Davenport e outra com Angela.


Formação atual: Andrew Levy (guitarra), Angela Ricci (voz) e Simon Bartholomew (baixo)

Outra novidade é ouvir o grupo com vozes masculinas no comando. Laville interpreta "Dontcha Wanna", com seu timbre idêntico a Sam Smith, e Jack Knight pega pesado na setentista "Little Dancer", com influência explícita de Chic, Tramps e, claro, o mestre Isaac Hayes. O disco ainda traz as vozes da experiente cantora norte-americana Angie Stone (Together) e da canadense Honey Larochelle (Heat).

O Brand New Heavies estreou no Brasil no extinto Free Jazz Festival, em 1995, e esteve por aqui pela última vez em 2013. Com o novo álbum, quem sabe eles não resolvem vir matar um pouco da saudade do público e, de quebra, ainda aproveitam o sol que brilha quase que o ano inteiro neste país tropical abaixo da linha do Equador. O convite está feito. Agora só precisamos de um ajudinha do Blue Note São Paulo. O que acham, rapazes?





terça-feira, 10 de setembro de 2019

New Orleans Jazz & Heritage Festival: 50 anos

Talvez não seja o melhor ou o maior, talvez não tenha as melhores atrações ou o público mais animado, mas ninguém coloca em dúvida que o festival New Orleans Jazz & Heritage, que acontece anualmente na cidade norte-americana de Nova Orleans, na Louisiana, é o festival mais eclético de todo planeta.

As más línguas vão dizer que a tal diversidade musical é apenas um chamariz para ganhar mais grana e desvirtuar a proposta de um festival genuíno de jazz.

Mas a verdade é que o festival, no decorrer dos anos, foi ficando cada vez maior e mais eclético e isso nunca foi um problema para os seus organizadores, que não titubearam em escalar nomes como Aerosmith, Pearl Jam, Bruce Springsteen, Aretha Franklin, Eric Clapton, Arcade Fire, Eagles, Robert Plant e Bob Dylan.

Em 2019, o festival completou 50 anos e sua principal atração forma os Rolling Stones, que acabaram adiando a apresentação por problemas de saúde do vocalista Mick Jagger. Mas a edição cinquentenária ainda tinha grandes nomes para oferecer, entre eles, Herbie Hancock, Buddy Guy, John Fogerty, Dianna Ross, Tom Petty, Alanis Morissette, Santana, Al Green, Cécile McLorin Salvant, Tom Jones e Van Morrison.


Preservation Hall Jazz Band toca anualmente no festival

Ao mesmo tempo que recebe gigantes do pop, rock e r&b, o festival também mantém vivo sua principal espinha dorsal: a tradição da música de Nova Orleans. Conhecida como o berço do jazz, a cidade respira música 24h por dia, sete dias por semana. O festival é "apenas" o ápice deste caldeirão musical que tem o Mardi Grass como seu cartão-postal. Os desfiles que acontecem pelas ruas da cidade ao som de bandas tocando o jazz do início do século XX são acompanhados por milhares de pessoas.

Na última edição do festival, 12 palcos abrigaram centenas de atrações e a música tradicional da cidade, como sempre, teve seu espaço garantido nas vozes Trombone Shorty, Neville Brothers, Preservation Hall Jazz Band, The Dirty Dozen Brass Band, Keith Frank & the Soileau Zydeco Band e Sunpie & the Louisiana Sunspots.

Para festejar os 50 anos de festival, uma caixa com cinco CDs e 50 músicas gravadas ao vivo ao longo dos anos no festival foi lançada pela gravadora Smithsonian Folkways. Os registros históricos trazem nomes que se tornaram a alma e a personificação da música tocada no festival. Impossível não lembrar dos embaixadores do festival Allen Toussaint (1938-2015) e Dr. John (1941-2019), além de outras tradicionais atrações como Professor Longhair, The Neville Brothers, Preservation Hall Jazz Band e The Dirty Dozen Brass Band. Todos eles representados na caixa, que ainda inclui um livro com fotos e histórias sobre o festival.


Allen Toussaint, Cyril Neville e Dr. John: três dos mais icônicos músicos de Nova Orleans

Um dos momentos mais marcantes da seleção é o tema "Louisiana 1927”, interpretado pelo cantor John Boutte. A gravação foi feita em 2006, um ano após a devastação da cidade pelo furação Katrina, que deixou centenas de mortos e milhares de desabrigados, e o trompetista Terence Blanchard, nascido em Nova Orleans e um dos grandes incentivadores da cidade pelo mundo, com a música "A Streetcar Named Desire".

O mosaico musical do festival está representado com a rainha do soul Irma Thomas, nos temas "Old Rugged Cros" e "Ruler of My Heart", nas bandas cajun The Savoy Family Cajun Band, Bruce Daigrepont e BeauSoleil, nas vozes gospel de Zion Harmonizers e Johnson Extension, no zydeco de Boozoo Chavis e Buckwheat Zydecoe, e nos bluseiros Kenny Neal, Clarence Gatemouth Brown e Sonny Landreth.


Fairgrounds, o hipódromo local, abriga os diversos palcos do festival

Destaque também para os cantores Tommy Ridgley e Deacon John, um dos muitos interpretes que tiveram o privilégio de ser acompanhado pelo saudoso pianista Allen Toussaint. O disco fecha com um emocionante interpretação de "Amazing Grace/One Love", com o grupo The Neville Brothers.

As grandes ausências da caixa, que evidentemente priorizou músicos locais, são gravações com os membros do clã Marsalis, capitaneado pelo pai Ellis (piano), e os irmãos Wynton (trompete) e Branford (sax). Quem também faz falta são o pianista Harry Connick Jr., nascido em Nova Orleans, B.B. King, que tocou várias vezes no festival, além do lendário Fats Domino, que participou das primeiras edições do evento.

Para comemorar os 50 anos, a organização do festival criou um poster imitando a famosa capa do disco Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, que completou 50 anos de lançamento em 2017. Na versão New Orleans Jazz & Heritage, estão retratados músicos e pessoas que fizeram ou fazem a história do festival neste meio século de existência.

Entre os músicos retratados no ilustração estão Louis Armstrong, Allen Toussaint, Dr. John, Professor Longhair, Harry Connick Jr., além de duas estátuas representando dois dos mais importantes músicos da história de Nova Orleans: Jelly Roll Morton (1890-1941) e Buddy Bolden (1877-1931). Para saber os nomes de todos os músicos, clique aqui.


Ilustração traz figuras icônicas da história do festival de Nova Orleans


















segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Manu Katché - Neighbourhood

Por 14 anos o Guia de Jazz esteve no ar com a missão de aproximar os internautas ao jazz. Um dos tópicos mais visitados era o de dicas de CDs, no qual dezenas de discos eram indicados e resenhados por mim. Infelizmente, com o fim do site em setembro de 2015, todo esse acervo foi "perdido".

Mas não totalmente perdido. Além do livro Jazz ao Seu Alcance - que traz todo o conteúdo do guia (dicas de CDs, DVDs, livros, entrevistas e muito mais) - você encontrará quinzenalmente neste blog algumas dicas de CDs publicadas anteriormente no site Guia de Jazz.

Sempre que possível, ao final de cada resenha você encontrará vídeos do Youtube com algumas faixas do disco indicado para escutar. Boa leitura e audição. Veja outras dicas de CDs aqui


Manu Katché - Neighbourhood (2005)


O baterista Manu Katché não é exatamente um músico de jazz, mas isto não deve ser encarado como um problema, já que este francês de origem africana participou de dois importantes discos do mundo pop na década de 80, Nothing Like the Sun, do cantor Sting, e So, do ex-Genesis Peter Gabriel. Paralelamente ao seu emprego oficial, Katché também flerta com o fusion e o jazz experimental, como é o caso de Neighbourhood, segundo disco solo do baterista lançado em outubro de 2006 na Europa e que foi editado pela ECM nos Estados Unidos quatro meses depois.

Para acompanhá-lo, o baterista escalou um quarteto de responsabilidade. Na linha de frente estão o experiente saxofonista norueguês Jan Garbarek, com quem o baterista já gravou algumas vezes, e o aclamado trompetista polonês Tomasz Stanko. Completam o time os também poloneses Slawomir Kurkiewicz (baixo) e Marcin Wasilewski (piano). Katché acerta em cheio ao escalar o trio polonês liderado por Stanko. Seus trabalhos lançados pela ECM são de grande beleza e aqui não poderia ser diferente. Outro atrativo é poder ouvir Garbarek tocando “sax de verdade”. Nos últimos anos, ele tem investido em discos experimentais e seu sax acaba sendo ofuscado por sons minimalistas.


Baterista tocou com gigantes da música como Sting e Peter Gabriel

O CD começa tranquilo ao som de “November 99”, com o piano de Wasilewski dando boas-vindas ao ouvinte. Logo depois é a vez do sax de Garbarek aparecer em “Number One” e na funkeada “Lovely Walk”. O fusion também é a raiz das ótimas “No Rush”, com destaque para o trompete de Stanko, e “Take Off and Land”, na qual a parceria Garbarek e Wasilewski está em seu ponto máximo.

É claro que um momento mais introspectivo não poderia faltar em um disco que traz Jan Garbarek e Tomasz Stanko. O trompete brilha nas singelas “Lullaby” e “February Sun” e o sax tenor arrasa em “Good Influence” e “Rose”. Para fechar, “Miles Away”, uma homenagem a Miles Davis com uma interpretação irrepreensível de Katché e o trio polonês. Para quem não conhecia o baterista só resta uma coisa a dizer: “Muito prazer, monsieur Katché”.

MÚSICAS:

November 99
Number One
Lullaby
Good Influence
February Sun
No Rush
Lovely Walk
Take Off And Land
Miles Away
Rose

Ouça abaixo "Number One" e "Miles Away":



sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Sara Gazarek volta ousada e madura

Mais de uma década se passou desde o o lançamento do primeiro disco da cantora norte-americana Sara Gazarek.

De lá para cá, apesar de ser respeitada pela crítica especializada, Sara continua no segundo escalação, atrás de cantoras mais contemporâneas como Cécile McLorin Salvant, Esperanza Spalding, Lizz Wright, Cyrille Aimée e Gretchen Parlato.

É claro que o sucesso pode não ser o principal objetivo de um artista, mas não adianta você ter um trabalho de qualidade e não ser reconhecido por isso.

Não é uma questão de ego, mas sim uma recompensa mais do que merecida para um artista que doa boa parte de sua vida pelo desejo de expressar sua arte, com dedicação, formação e, principalmente, paixão pelo que faz.

Agora, Sara Gazarek parece ter se encontrado definitivamente. Com o lançamento do disco Thirsty Ghost, o sexto da carreira, a cantora deixou de lado canções "mais tolas" e mergulhou em um caldeirão sonoro que inclui Nick Drake, Sam Smith, Dolly Parton e Stevie Wonder. O resultado é um disco atrevido e pulsante.

Em entrevistas recentes, ela falou da importância do cantor Kurt Elling nesta mudança. "Após uma apresentação, Kurt conversou comigo e disse que eu tinha potencial para crescer artisticamente e que ficar limitada a ser uma cantora de standard não era o suficiente".


Sara Gazarek lança novo álbum, o primeiro produzido inteiramente pela cantora

A chacoalhada do veterano cantor foi crucial para a mudança de rumo e atitude de Sarah. Isso fica claro logo na primeira canção, "Never Will I Marry", com destaque para o teclado de Stu Mindeman e a bateria de Christian Euman. O tema mostra uma cantora consciente de sua capacidade e altiva para alçar voos mais perigosos. Na sequência, uma versão deliciosa de "I'm Not the Only One", sucesso mundial na voz do cantor Sam Smith.

Outras versões também mostram a procura de Sara por d istintos gêneros e épocas, com “River Man”, de Nick Drake (1969), “I Believe (When I Fall In Love It Will Be Forever)”, de Stevie Wonder, “Jolene”, de Dolly Parton e “Cocoon”, de Björk. Ainda no território de composições alheias, Sara oferece ao ouvinte uma bela versão cantada de uma composição do pianista Brad Mehldau, que aqui ganhou o nome de "Distant Storm", com a participação especial de Kurt Elling.

Quem também dá tempero ao disco é o pianista Larry Goldings, que toca em duas composições escritas em parceria com Sarah: “Easy Love” e “Gaslight District”. Para fechar, a cantora deixou o mais jazzístico tema do álbum: "Spinning Round", com direito da scat, solo de piano e um andamento rítmico alternando o tempo inteiro.

O que acontecerá com Sara Gazarek depois de Thirsty Ghost só o tempo dirá. Independentemente do resultado, para os mais atentos, ficará a certeza de que a cantora não é popular por falta de ousadia ou talento, mas, talvez, porque nem todos nesta vida foram forjados para alcançar a notoriedade ou mudar paradigmas. Quem sabe, não é mesmo?



















segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Blue World traz mais inéditas de Coltrane

Mais de meio século se passou desde a morte de John Coltrane até que uma nova descoberta chegasse ao público.

A novidade responde pelo nome de Blue World e inclui essencialmente versões alternativas de músicas já gravadas anteriormente pelo músico, entre elas, "Naima", "Village Blues", "Traneing In" e "Like Sonny".

O disco será lançado em 27 de setembro, pela gravadora Impulse!, quatro dias após o nascimento do saxofonista, que nasceu há 93 anos, em Hamlet, na Carolina do Norte (EUA). Coltrane morreu em 17 de julho de 1967, aos 40 anos de idade, vítima de câncer no fígado.


A compilação, cuja existência se desconhecia, foi gravada em junho de 1964 pelo quarteto clássico de John Coltrane - com McCoy Tyner no piano, Elvin Jones na bateria e Jimmy Garrison no baixo -, entre as gravações dos álbuns Crescent e A Love Supreme, no estúdio de Rudy Van Gelder, em Nova Jersey.


Elvin Jones, McCoy Tyner, John Coltrane e Jimmy Garrison

Os temas de Blue World, que faziam parte de uma sessão de gravações com 37 minutos, foram gravados pelo saxofonista para a trilha sonora do filme canadense Le Chat dans le Sac, a convite do diretor Gilles Groulx. Porém, segundo a National Public Radio, apenas dez minutos de gravações foram aproveitadas no filme.

“Blue World revela o progresso pessoal de Coltrane, bem como a consistência interativa e os detalhes sonoros que o quarteto clássico estabeleceu firmemente como a sua assinatura coletiva em 1964. Essa assinatura era tão segura e dramática, tão vigorosa e diferente do som que Coltrane tinha criado antes.



"É significativo que esta sessão de gravações - qualquer que tenha sido a principal força motriz - tenha acontecido entre [a criação de] dois dos álbuns mais expansivos e espiritualmente transcendentes de Coltrane, que iriam definir o tom do resto da sua carreira musical”, destacou a Impulse! em comunicado divulgado para a imprensa.

O primeiro single de Blue World é uma segunda versão alternativa do tema "Out of This World" (originalmente composta por Harold Arlen e Johnny Mercer). Uma outra versão de "Out of This World" foi incluída no álbum Coltrane (1962).

No ano passado, a Impulse! lançou um outro álbum perdido de John Coltrane, Both Directions At Once, que trouxe uma sessão de gravação em 1963 durante a qual Coltrane capitaneou o seu quarteto clássico.

Fonte: publicado originalmente no site do jornal Público, de Portugal.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Chrissie Hynde mergulha nos standards

Sempre que um artista pop resolve entrar no jazz fica a impressão de que alguma coisa está fora da ordem. Para os mais eloquentes, a migração de gênero é coisa de oportunista e não deve ser levada a sério. Apesar da gritaria, isso tem acontecido desde sempre, mas o caso mais gritante foi a série de quatro disco The Great American Songbook, do cantor Rod Stewart, no início dos anos 2000.

O veterano roqueiro pegou os grandes standards da música norte-americana compostos por Cole Porter, George Gershwin, Rodgers & Hart, Harold Arlen e Irvin Berlin, acompanhado por uma orquestra, e soltou sua voz rouca. O resultado foi um sucesso estrondonso, apesar de toda a reclamação.

Ele não foi o primeiro a fazer isso, uma década antes, Robert Palmer e Diana Ross também gravaram belos discos com orquestra. A mesma fórmula também foi usada por Bryan Ferry, Michael Bubble, Michael Bolton e, mais recentemente, pela cantora Annie Lennox, que lançou o disco Nostalgia pela prestigiada gravadora de jazz Blue Note.

Toda essa introdução nos remete a mais um disco com a mesma pegada. Desta vez, a "usurpadora" é uma senhora de 67 anos que responde pelo nome de Chrissie Hynde, também conhecida como a voz do grupo The Pretenders, que fez muito sucesso na década de 1980. O disco Valve Bone Woe traz canções compostas por Brian Wilson (the Beach Boys), Hoagy Carmichael, John Coltrane, Nick Drake, Ray Davies, Rodgers & Hammerstein e Tom Jobim, tudo acompanhado pelo the Valve Bone Woe Ensemble.

Antes que comecem a apedrejar Chrissie, que há muito tempo não lança nada relevante, é importante salientar que sua voz caiu muito bem em canções imortalizados por Nina Simone, Billy Holiday e Nancy Wilson. O cartão de vista é "How Glad I Am", uma bela balada que fez grande sucesso com Nancy Wilson, mas aqui tem como destaques naipes de metais e uma guitarra muito bem postada.


Aos 67 anos, Chrissie Hynde lança seu segundo disco solo longe do The Pretenders


E o que dizer do clássico "Caroline, No", do disco Pet Sounds, dos Beach Boys? Mais uma vez, a voz de Chrissie mostra-se acertada e o arranjo oferece pitadas de dub que deixam a melodia ainda mais bela. Em "You Don't Know What Love Is", a melancolia toma conta de Chrissie e do ouvinte.

Com "Wild Is The Wind" e "Absent Minded Me", gravadas respectivamente por Nina Simone e Barbra Streisand, Chrissie deixa claro que o repertório priorizou temas mais femininos. Mas isso não a impediu de incluir "Once I Loved", de Tom Jobim, "I Get Along Without You Very Well", famosa na voz de Chet Baker, "River Man", de Nick Drake, e "No Return", dos The Kinks. O jazz aparece "de verdade" em "Naina", de John Coltrane, e a instrumental "Meditation on a Pair of Wire Cutters, de Charles Mingus.

No último dia 6 de julho, no mitológico The Hollywood Bowl, em Los Angeles, California (EUA), Chrissie apresentou ao vivo o repertório de seu novo disco, acompanhada por uma grande orquestra. O resultado pode não ter sido brilhante, pois o local se mostrou inadequado para esse tipo de canção, mas ficou evidente que a cantora colherá bons frutos desta sua introdução ao jazz. Mas fica aqui um conselho de amigo, assim como fez neste show, inclua sempre alguns clássicos do Pretenders no repertório. É bom não cutucar a onça com vara curta.











terça-feira, 13 de agosto de 2019

Pat Metheny - Secret Story

Por 14 anos o Guia de Jazz esteve no ar com a missão de aproximar os internautas ao jazz. Um dos tópicos mais visitados era o de dicas de CDs, no qual dezenas de discos eram indicados e resenhados por mim.

Infelizmente, com o fim do site em setembro de 2015, todo esse acervo foi "perdido". Mas não totalmente perdido.

Além do livro Jazz ao Seu Alcance, que traz todo o conteúdo do guia, com dicas de CDs, DVDs, livros, entrevistas e muito mais, você encontrará quinzenalmente neste blog algumas dicas de CDs publicadas anteriormente no site Guia de Jazz.

Sempre que possível, ao final de cada resenha você encontrará vídeos do Youtube com algumas faixas do disco indicado para escutar. Boa leitura e audição. Veja outras dicas de CDs aqui

Pat Metheny - Secret Story (1992)

A trajetória do guitarrista Pat Metheny começou há quase meio século, na distante década de 1970, quando chamou a atenção do vibrafonista Gary Burton, que o escalou para ser seu pupilo. Desde então, Metheny se transformou em um dos mais inventivos e festejados músicos do jazz. Seu toque pessoal e sua inquietação musical o levaram a distintos caminhos musicais e fizeram do músico um verdadeiro alquimista sonoro.

Solo, elétrico, acústico, em trio, em quarteto, com orquestra, não importa, a genialidade do guitarrista pode ser provada em todos os formatos e sem qualquer contraindicação. Desde sua estreia na gravadora ECM, em 1976, Metheny tocou com dezenas de músicos e imortalizou sua guitarra sintetizada dentro do jazz fusion.

Com os discos Offramp (1982),The Falcon And The Snowman (1985), Still Life Talking (1987), Zero Tolerance for Silence (1994), Orchestrion (2010) ou ao lado de Charlie Haden, John Scofield, Ornette Coleman, Brad Mehldau e Chris Potter, Metheny não poupou esforços para traduzir em música tudo aquilo que tinha em mente.

Entre os discos mais interessantes está Secret Story (1992), que poderia muito bem ter sido a trilha sonora de um filme. Ao todo, são mais de 80 músicos, incluindo a Orquestra de Londres, conduzida por Jeremy Lubbock, os percussionistas brasileiros Armando Marçal e Naná Vasconcelos, o veterano gaitista Toots Thielemans, além dos velhos camaradas da Pat Metheny Band, Paul Wertico (bateria), Steve Rodhy (baixo) e Lyle Mays (piano). Em 2017, uma versão estendida foi lançada. A novidade são cinco faixas gravadas na mesma época, mas que acabaram ficando fora do disco original.

A sonoridade criada aqui é intensa e envolvente. Logo de saída aparece "Above The Treetops", com Metheny solando no violão entre o coral de voz Cambodian Royal Palace. O som nos leva diretamente às trilhas do grego Vangelis. O chamado "som de Pat Metheny" aparece por inteiro em "Facing West", uma das poucas faixas com a participação de Mays no piano. O clima de trilha sonora volta com tudo na singela "Cathedrak In a Suitcase".

Em "Fiding and Believing", com 10 minutos de duração, o vocal de Mark Ledford dá o tom de um tema cheio de nuances e surpresas. Durante a turnê deste disco, um jogo de luzes muito bem sacado é usado neste música. Confira no vídeo abaixo a apresentação completa do show deste álbum gravado em New Brunswick, em Nova Jersey (EUA).

Os dois temas mais "simples" são "Sunlight", uma balada pop, e a delicada "Always and Forever", com participação de Toots Thielemans. Em "See the World", o velho Metheny está por completo. Suas frases rápidas e precisas, estão em perfeita sintonia com a bateria sempre imprescindível de Wertico.


Contra-capa do disco lançado pela gravadora Geffen

Outro momento singular acontece na singela "Antonia", com Metheny tocando guitarra e acordeon sintetizados. O mesmo acontece com "Tell Her You Saw Me", que traz um dueto de guitarra e harpa, tudo com a Orquestra de Londres fazendo o pano de fundo, e "River Rain", com sete minutos de duração e a perfeita fusão entre a guitarra de Metheny e a percussão de Marçal.

Diante de um álbum tão forte e delicado ao mesmo tempo, não poderia faltar um tema épico. E é assim mesmo que deve ser rotulado "The Truth Will Always Be", com nove minutos de duração. Mais uma vez, a bateria de Wertico faz toda a diferença dentro de um tema que vai criando vida a cada minuto. O arranjo envolve o ouvinte de uma maneira única.

Quando você percebe, já está completamente entorpecido e hipnotizado pelo tema. No meio da canção, quase como um grito de socorro, a guitarra sintetizada de Metheny corta o silêncio com um solo arrebatador. A catarse é inevitável e a expectativa é completamente superada.

Com Secret Story, Pat Metheny provou mais uma vez que não há limite para sua guitarra e sua mente musical. Hoje, aos 65 anos de idade, o velho guitarrista oferece aos seus fãs, a cada disco, um novo desafio e a garantia de que até o fim de seus dias, ele terá sua guitarra em punho para provocar as mais distintas sensações em seu público.













sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Ressuscitando Miles

Passa ano e entra ano, e a figura onipresente de Miles Davis está sempre "assombrando" o mundo do jazz. É claro que isso não é uma crítica, pelo contrário, Miles fez por merecer essa devoção.

Mas é fato que muitos ainda faturam com o músico de jazz mais importante da história ao lado de Duke Ellington, Charlie Parker, Louis Armstrong e John Coltrane. Neste ano, três lançamentos voltam a "ressuscitar" o trompetista norte-americano que morreu em 1991, aos 65 anos.

O primeiro é o lançamento do vinil duplo do disco Complete Birth Of The Cool, de 1957. As gravações foram feitas entre 1949-1950, com a participação de Gerry Mulligan, Lee Konitz, Max Roach, John Lewis e os arranjos de Gil Evans.

A versão estendida conta com uma apresentação ao vivo gravada no The Royal Roost, nos dias 4 e 18 de setembro de 1948.

Outro lançamento é o disco inédito Rubberband (foto abaixo), gravado originalmente em 1985, o que seria a estreia do trompetista na gravadora Warner. Mas o disco acabou engavetado e "substituído" pelo álbum Tutu. A nova versão de Rubberband traz a participação das cantoras Lalah Hathaway, Ledisi e Medina Johnson. Originalmente, o disco teria a participação de Chaka Khan e Al Jarreau. Mas isso acabou não acontecendo.

A última preciosidade de Miles para 2019 é o documentário Miles Davis: Birth of the Cool, do aclamado documentarista Stanley Nelson. A estreia aconteceu no festival Sundance, em janeiro, e foi muito elogiado pela crítica.

Segundo o diretor, além de fotos inéditas e gravações nunca antes ouvidas, o documentário entrevista a viúva de Miles, Frances Davis, além de vários músicos, entre eles, Herbie Hancock, Santana e Ron Carter.

Além disso, o ator Carl Lumbly narra, como se fosse o próprio Miles, trechos da autobiografia do músico, deixando o documentário ainda mais atraente e pessoal.

Vale lembrar que este ano comemora-se os 60 anos do lançamento do disco Kind of Blue, no dia 17 de agosto de 1959. Considerado um divisor de água dentro do jazz, o disco traz o trompetista ao lado de John Coltrane (sax), Julian Cannonball Adderley (sax), Paul Chambers (baixo), Bill Evans (piano) e Wynton Kelly (piano), Jimmy Cobb (bateria) .

Oficialmente, não há nada programado para marcar essa importante data no calendário do jazz. Para quem quer saber mais sobre o cultuado disco, procure os livros Kind of Blue, de Richard Williams, da editora Casa da Palavra, e Kind of Blue: a história da obra prima de Miles Davis, de Ashley Kahn, da editora Barracuda. Como foram lançados faz um bom tempo, não será difícil encontrar em um sebo perto de você. Vale a pena a leitura.

O trompetista também virou filme em 2016, com o ator Don Cheadle fazendo o papel do músico, além de estrear na direção.  Miles Ahead não conta a história cronológica de Davis. O diretor preferiu pinçar alguns pontos de sua trajetória e enfatizar como a genialidade do músico trazia dificuldade para sua vida ao mesmo tempo que o tornou um dos músicos mais influentes do século XX.

LP duplo do disco Complete Birth Of The Cool, originalmente lançado em 1957









quinta-feira, 25 de julho de 2019

Quiana Lynell mistura jazz, soul e gospel em seu álbum de estreia

De tempos em tempos somos presenteados com uma nova cantora de jazz. Da "nova safra", temos nomes como Cécile McLorin Salvant, Lizz Wright, Cyrille Aimée, Kandace Springs, Esperanza Spalding, Jazzmeia Horn e Somi.

Também é fato que entre as cantoras citadas, grande parte delas flerta com o r&b e com a soul music, o que não é exatamente um problema, concorda?

No fim de 2017, uma nova voz começou a aparecer após ter vencido o Sarah Vaughan International Jazz Vocal Competition, um dos mais importante concursos vocais dos Estados Unidos e que já teve como campeãs nomes como Cyrille Aimée, Laurin Talese, Jazzmeia Horn e Arianna Neikrug.

Mas em 2017 a vencedora foi Quiana Lynell, uma mãe de família que trabalhava como professora de música e decidiu abrir mão de seu ofício principal para se dedicar totalmente à carreira. O resultado disso é o disco A Little Love, lançado em 2019 pela gravadora Concord. O gravação de um CD foi um dos prêmios que Quiana ganhou ao vencer o concurso.

O disco traz a cantora interpretando temas imortalizados nas vozes de Nina Simone, Ella Fitzgerald, Carmen McRae, Chaka Khan, Donny Hathaway e Dusty Springfield. Tudo muito bem equalizado e com pitadas muito bem temperadas de jazz, blues, r&b, gospel e soul.

O resultado é um misto entre Dianne Reeves, Diane Schuur e Cassandra Wilson. A própria cantora declarou em entrevista que gostaria de "ser Dianne Reeves". Ao ouvir seu disco de estreia, é possível ver que Quina está no caminho certo.

Suas interpretações de "Move Me No Mountain", de Chaka Khan,, "You Hit The Spot", de Ella Fitzgerald, "Just A Little Lovin' (Early In The Mornin')", de Dusty Springfield, e "I Wish I Knew (How It Would Feel to Be Free)", de Nina Simone, trazem uma voz segura, macia e muito bem treinada para seu ofício.

Quiana também flerta com o blues nos temas "Tryin' Times", de Donny Hathaway, e "Hip Shakin' Momma", de Irma Thomas. O jazz mais "tradicional" está na clássica "They All Laughed", composta por George Gershwin e gravada por nomes como Carmen McRae, Frank Sinatra, Fred Astaire, Sarah Vaughan e Chet Baker. No disco, Quina é acompanhada por Cyrus Chestnut (piano), Jamison Ross (bateria), Ed Cherry (guitarra), George DeLancey (baixo) e Monte Croft (vibrafone).

















terça-feira, 23 de julho de 2019

Novo disco traz habitual energia do baixista Avishai Cohen

Nas últimas décadas, o jazz foi invadido por um conjunto de músicos que tem no jazz sua raiz, mas que também traz na bagagem a contemporaneidade do rock e do pop. Há diversos exemplos, mas podemos citar aqui nomes como Neil Cowley, The Bad Plus, Jamie Cullum, GoGo Penguin, Mathias Eick, Mammal Hands, Marcin Wasilewski, Tord Gustavsen, Avishai Cohen e o saudoso Esbjörn Svensson.

Quem já teve a oportunidade de vê-los ao vivo sabe da vitalidade de suas apresentações. A sensação é estar em uma montanha russa. O som oscila com frequência e cria uma atmosfera de grande impacto para quem está na plateia.

Entre os músicos citados, o baixista israelense Avishai Cohen tem uma das histórias mais marcantes. No meio da década de 1990, ele foi convidado pelo pianista Chick Corea a fazer parte de sua banda. De lá para cá, foram centenas de apresentações e mais de uma de dezena de discos solos lançados. Em todos eles, o baixo acústico de Cohen traz o som marcante de suas influências orientais (música árabe e israelense) e do fusion jazz (Jaco Pastorius), além de sua formação ouvindo compositores clássicos.

Em seu novo disco, Arvoles, todos os elementos que fizeram Cohen chamar a atenção do público entre centenas de talentosos músicos que circulam por aí estão presentes. O piano marcado, o baixo pulsante e a bateria seca hipnotizam o ouvinte. Ao seu lado, Cohen tem Noam David (bateria) e Elchin Shirinov (piano). Em cinco das dez faixas, o trio ganha o reforço de Bjorn Samuelsson (trombone) e Anders Hagberg (flauta).

O disco abre com o quinteto interpretando "Simonero", com o piano roubando a cena . Depois vem a singela, "Arvoles", na versão trio, na qual a vassourinha da bateria oferece o clima ideal para as belas frases que saem da cordas do baixo de Cohen. O trio volta a atacar em "Face Me", desta vez com Cohen usando o arco em seu baixo e o piano o acompanhando nota a nota.


Cohen toca durante a gravação do disco Arvoles

O tema "Gesture" tem duas partes. A primeira mais tranquila e sensível, e a segunda mais encorpada, com o piano fazendo o papel de protagonista. Nas músicas, "Elchinov" e "Nostalgia", novamente em trio, as marcas registradas de Cohen, citadas acima, como o piano marcante e o baixo pulsante, estão em sua forma mais explícita. A tal sensação de montanha russa faz o ouvinte se segurar na cadeira ao ouvir esses dois temas.

Em "New York 90s", pela primeira e única vez no álbum, o trombone solo, mas sem grande euforia. O disco fecha com a bela "Wings", sem dúvida, a música mais jazzista de todas, no formato de quinteto, com a flauta e o trombone oferecendo uma atmosfera orquestral pontual para as deliciosas picardias de Cohen e Shirinov.





sexta-feira, 19 de julho de 2019

Série Jazz Icons

A série de DVD Jazz Icons foi lançada em 2006 e foi recebida com empolgação pelos fãs de jazz. Desde então, cinco lotes de DVDs - a série foi encerrada em 2011 - foram lançados contendo shows gravados na Europa, entre 1957 e 1978, com quase todos os grandes ícones da história do jazz, entre eles, Ella Fitzgerald, John Coltrane, Louis Armstrong, Quincy Jones, Sonny Rollins, Count Basie, Art Blakey e Dizzy Gillespie.

Ao todo, a série lançou 36 DVDs e se tornou o maior acervo da história do jazz oferecido para o grande público. Seu valor é inestimável. A qualidade das gravações, o repertório, os músicos e, talvez o mais importante, o período dessas gravações. A maior parte delas foi filmada entre 1957 e 1966, considerado pelos estudiosos como um dos períodos mais importantes da história do jazz.

Entre 1957 e 1966, discos essências foram lançados, entre eles, Miles Davis (Kind of Blue), Dave Brubeck (Time Out), Charles Mingus (Mingus Ah Um), Ornette Coleman (The Shape of Jazz to Come), Sonny Rollins (Saxophone Colossus), John Coltrane (A Love Supreme), Count Basie (The Atomic Mr. Basie), Horace Silver (Song for My Father), Art Blakey And The Jazz Messengers (Moanin’), Eric Dolphy (Out to Lunch), Wayne Shorter (Speak No Evil) e Lee Morgan (The Sidewinder).

Diante dessa enxurrada de discos, o jazz vivia realmente uma época riquíssima, comparada apenas aos anos dourados das big bands, entre as décadas de 1930 e 1940. Os vídeos da coleção deixam isso bem claro. Assistir a John Coltrane (foto acima) tocando pela primeira vez em público "A Love Supreme" é uma experiência inesquecível. A gravação foi feita no festival Antibes Jazz, na França, em julho de 1965, ao lado de McCoy Tyner (piano), Jimmy Garrison (baixo) e Elvin Jones (bateria).


Lee Morgan (trompete), Jymie Merritt (baixo) e Ar Blakey (bateria)


Outro destaque é a orquestra comandada por Quincy Jones, gravada em 1960, na qual faziam parte nomes como Phil Woods (sax), Clark Terry (trompete) e Sahib Shihab (sax). Como não se arrepiar ao ver Art Blakey (bateria) e seus Jazz Messengers, em 1958, com Lee Morgan (trompete), Benny Golson (sax), Bobby Timmons (piano) e Jymie Merritt (baixo)? Blakey também aparece em um concerto no qual Wayne Shorter (sax) e Walter Davis Jr.(piano) são apresentados como os novos membros dos Jazz Messengers.

Infelizmente, a série tem poucos registros de vozes, sejam elas masculinas ou femininas. Entre os shows com vocal, destaque para a jovem Ella Fitzgerald, em show gravado na Bélgica, em 1957, com Ray Brown (baixo), Oscar Peterson (piano) e Herb Ellis (guitarra), em 1963, na Suécia, ao lado do pianista Tommy Flanagan.

Outro registro importante é de Sarah Vaughan (foto), gravados em 1958 e 1964. A Divina Vaughan traz um repertório com clássicos como "Over the Rainbow", "Lover Man" e "The More I See You". Por último, o registro de Louis Armstrong e seus All-Stars, na Bélgica, em 1959. É um dos poucos shows completos do trompetista que se tem acesso. Um verdadeiro tesouro para os apreciadores do jazz.


As grandes ausências da coleção são Miles Davis, Charlie Parker e Billie Holiday. No caso de Davis, a opção é procurar o vídeo gravado em Milão, na Itália, em 1964. A qualidade das imagens não é tão boa como da série Jazz Icons, mas é interessante ver Davis ao lado dos jovens Wayne Shorter e Herbie Hancock (piano). Sobre Parker, infelizmente, não há nenhum registro conhecido de um concerto do saxofonista, que morreu em maio de 1955, aos 34 anos de idade.

O mesmo acontece com Billie Holiday, que morreu aos 54 anos, em 1959. O melhor registro que você pode encontrar de Billie está no DVD The Sound of Jazz, que traz a íntegra do programa de TV produzido em 1957 pela CBS. Billie canta o tema "Fine and Mellow". A cantora também pode ser assistida no filme New Orleans (1947), no qual divide a cena ao lado de Louis Armstrong.


Primeira caixa lançada da série Jazz Icons. Coleção conta com 36 DVDs


Todos os DVDs, que são vendidos em cinco caixas separadas ou cada um dos 36 títulos separadamente, têm um encarte com muita informação e fotos raras. Abaixo está a relação de todos os títulos da série Jazz icons, separados em caixas. Para saber mais detalhes sobre a coleção, visite o site oficial aqui.

BOX 1

Art Blakey & The Jazz Messengers • Live in '58
Dizzy Gillespie • Live in '58 & '70
Louis Armstrong • Live in '59
Quincy Jones • Live in '60
Thelonious Monk • Live in '66
Buddy Rich • Live in '78
Ella Fitzgerald • Live in '57 & '63
Count Basie • Live in '62
Chet Baker • Live in '64 & '79

BOX 2

John Coltrane • Live in '60, '61 & '65
Dave Brubeck • Live in '64 & '66
Duke Ellington • Live in '58
Sarah Vaughan • Live in '58 & '64
Dexter Gordon • Live in '63 &'64
Wes Montgomery • Live in '65
Charles Mingus • Live in '64

BOX 3

Sonny Rollins • Live in '65 & '68
Cannonball Adderley • Live in '63
Bill Evans • Live '64-'75
Rahsaan Roland Kirk • Live in '63 & '67
Lionel Hampton • Live in '58
Oscar Peterson • Live in '63, '64 & '65
Nina Simone • Live in '65 & '68

BOX 4

Jimmy Smith • Live in '69
Coleman Hawkins • Live in '62 & '64
Art Farmer • Live in '64
Erroll Garner • Live in '63 & '64
Woody Herman • Live in '64
Art Blakey • Live in '65
Anita O'Day • Live in '63 & '70

BOX 5

John Coltrane • Live In France 1965
Art Blakey's Jazz Messengers •Live In France 1959
Thelonious Monk •Live In France 1969
Johnny Griffin •Live In France 1971
Freddie Hubbard •Live In France 1973
Rahsaan Roland Kirk •Live In France 1972













quinta-feira, 11 de julho de 2019

5 décadas de ECM

E lá se vão cinco décadas desde que o músico e produtor alemão Manfred Eicher (foto) criou a gravadora ECM (Edition of Contemporary Music), em Munique, na Alemanha, em 1969. Para quem está mais familiarizado com a gravadora, sabe que a principal preocupação de Eicher é com a qualidade de som e a experiência que esse som cristalino e impecável deve causar no ouvinte.

Aliado a essa obsessão, o selo alemão também se notabilizou por gravar músicos de diferentes partes do mundo, sem nunca se preocupar em "vender discos".

Eicher é, acima de tudo, um apaixonado pela música e usa sua criação para poder expandir as mentes das pessoas e mostrar que há musicalidade em todos os cantos deste planeta. Com isso em mente, a ECM se tornou a casa de músicos de diferentes nacionalidades, entre eles, Jan Garbarek (Noruega), Tomasz Stanko (Polônia), Palle Danielsson (Suécia), Enrico Rava (Itália), Egberto Gismonti (Brasil), Dino Saluzzi (Argentina), Lakshminarayana Shankar (Índia), Miroslav Vitous (Iugoslávia), Stephan Micus (Alemanha), Arvo Pärt (Estônia), Anouar Brahem (Tunísia) e Manu Katché (França).

A ECM também é o lar de grandes nomes do jazz como os pianistas Keith Jarrett, Chick Corea, Vijay Iyer e Paul Bley, os guitarristas Pat Metheny, John Abercrombie, Ralph Towner, Terje Rypdal, Steve Tibbetts e Bill Frisell, os bateristas Paul Motian e Jack DeJohnette, o vibrafonista Gary Burton e o baixista Dave Holland.

Foi na ECM que o guitarrista Pat Metheny e o pianista Keith Jarrett chamaram a atenção do público. Metheny lançou seu primeiro disco (Bright Size Life) na ECM, aos 21 anos de idade, e continuou gravando pelo selo alemão por uma década, com destaque para os discos 80/81 (1981), Offramp (1982) e First Circle (1984). Para Jarrett, a gravadora é sua casa desde 1971, quando lançou o disco Facing You.

Mas nada superaria o disco duplo The Köln Concert, de 1975. O álbum é considerado um marco na carreira do pianista e um divisor de águas na trajetória da ECM. Até hoje, as improvisações de Jarrett neste álbum é motivo de espanto e admiração de novos ouvintes ao terem contato com este registro histórico que traz o pianista em um transe absoluto, solando e suando a cada compasso. Além disso, Jarrett tem uma dezena de discos, incluindo DVDs, lançados no formato de trio ao lado do baterista Jack DeJohnette e do baixista Gary Peacock.

Com o passar dos anos, o antenado produtor Manfred Eicher manteve seus ouvidos abertos para descobrir e gravar novos talentos da música instrumental. Entre os "novatos", estão músicos como os pianistas Vijay Iyer, Craig Taborn, Tord Gustavsen e Marcin Wasilewski, o baixista Mats Eilertse, os trompetistas Mathias Eick e Avishai Cohen, o saxofonista Nicolas Masson e o guitarrista Jakob Bro. Conheça todos os artistas da gravadora clicando aqui


Gismonti grava com Charlie Haden e Jan Garbarek o disco Mágico, de 1979


O Brasil tem um representante de peso dentro da ECM: o pianista e violonista Egberto Gismonti. É claro que o talento do brasileiro na passaria desapercebido pelo produtor alemão, que o contratou em 1976, quando lançou o disco Dança das Cabeças, ao lado do percussionista pernambucano Naná Vasconcelos. A longa parceria com a ECM, que dura até hoje, rendeu outros importantes discos como Mágico (1979), ao lado do baixista Charlie Haden e do saxofonista Jan Garbarek, e Dança dos Escravos (1989), disco solo de violão.

De olho nas novas gerações, em 2017, a gravadora colocou todo o seu catálogo nas principais plataformas digital, entre elas, Apple Music, Amazon, Spotify, Deezer, Tidal e Qobuz. Na ocasião, a ECM disse que os lançamentos nos formatos CD e LP vão continuar, mas que a prioridade da gravadora é que a música seja ouvida. Diante do aumento da pirataria e de sites que não pagavam direitos autorais pela execução de suas músicas, a gravadora teve que sucumbir aos novos tempos.


Guitarrista John Abercrombie gravou vários discos pela ECM


O trabalho do visionário Manfred Eicher, hoje com 76 anos, não acabou e sua inquietação sempre estará ditando os rumos da ECM. A essência de seu pensamento continua intacta. Em uma entrevista na década de 1990, ele sintetizou bem o que move seu trabalho e sua missão.

"Para mim, não se trata do que eu gosto ou não gosto. As minhas decisões baseiam-se sobretudo naquilo que considero merecer ou não merecer ser gravado. Os meus critérios não são critérios de gosto, e não importa se gosto ou não de um disco que vou editar, mas apenas avaliar se ele deve ser gravado. Mas o gosto do público não afeta a minha decisão. Apenas a música".

Em 2011, foi lançado o DVD Sounds and Silence, que mostra os bastidores das gravações de vários músicos, entre eles, Arvo Pärt, Eleni Karaindrou, Dino Saluzzi, Anja Lechner e Anouar Brahem, e confidências sobre a relação profissional com Manfred Eicher. Além da seleção de vídeos abaixo, clicando aqui, você encontra uma playlist publicada pelo canal oficial da ECM no Youtube com dezenas de vídeos.






















quinta-feira, 4 de julho de 2019

Jimmy Smith - Organ Grinder Swing

Por 14 anos o Guia de Jazz esteve no ar com a missão de aproximar os internautas ao jazz. Um dos tópicos mais visitados era o de dicas de CDs, no qual dezenas de discos eram indicados e resenhados por mim. Infelizmente, com o fim do site em setembro de 2015, todo esse acervo foi "perdido".

Mas não totalmente perdido. Além do livro Jazz ao Seu Alcance - que traz todo o conteúdo do guia (dicas de CDs, DVDs, livros, entrevistas e muito mais) - você encontrará quinzenalmente neste blog algumas dicas de CDs publicadas anteriormente no site Guia de Jazz.

Sempre que possível, ao final de cada resenha você encontrará vídeos do Youtube com algumas faixas do disco indicado para escutar. Boa leitura e audição. Veja outras dicas de CDs aqui


Jimmy Smith - Organ Grinder Swing (1965)

Uma pesquisa realizada em uma loja de discos inglesa perguntou aos seus consumidores: qual imagem vem à cabeça quando você escute a palavra jazz? As respostas foram as mais variadas possíveis, mas as cinco primeiras foram essas: Miles Davis, saxofone, Louis Armstrong, trompete e Ella Fiztgerald.

O resultado não foi uma surpresa, mas deixou evidente que o saxofone e trompete são instrumentos fortemente associados ao jazz. Os principais responsáveis por isso, é claro, são músicos como Miles Davis, Dizzy Gillespie, Wynton Marsalis, John Coltrane, Charlie Parker e Louis Armstrong.

Quem tem mais intimidade com o jazz sabe que outros instrumentos, como gaita, guitarra, vibrafone, flauta, trombone e, obviamente, a bateria e o piano também são meios de expressar toda a sua beleza. Nos últimos anos, o órgão Hammond é outro instrumento que tem conquistado cada vez mais espaço no jazz. Entre seus principais expoentes estão John Medeski, Joey DeFrancesco, Larry Goldings e Sam Yahel.

Mas esses novatos sabem que a porta para o Hammond B-3 no jazz foi aberta há quase 50 anos, quando organistas como Dr. Lonnie Smith, Jimmy McGriff, Jack McDuff e Jimmy Smith tiraram o “velho” órgão das igrejas batistas e o trouxeram para o jazz.

Entre esses veteranos organistas, nenhum deles é mais cultuado e associado ao instrumento do que Jimmy Smith. Nascido em 1928, James Oscar Smith foi o responsável pela popularização do instrumento e gravou álbuns antológicos nas duas principais gravadoras de jazz do planeta: Blue Note e Verve.

Com cerca de 50 discos no currículo, é difícil indicar apenas um, mas vamos falar sobre um título que muitas vezes é esquecido: Organ Grinder Swing, de 1965, lançado pela Verve. Depois de quase uma década na Blue Note, onde gravou discos como Back At The Chiken Shack, Straight Life e Prayer Meetin, Smith começou a gravar pelo selo de Norman Granz.


Jimmy Smith grava ao lado do guitarrista Kenny Burrell


Organ Grinder Swing traz o organista em uma formação enxuta, acompanhado pelo baterista Grady Tate e o guitarrista Kenny Burrell. Em trio, Smith parece ainda melhor e deixa isso bem claro logo na faixa-título. No clássico “Greensleeves”, com um solo de quase 7 minutos, Smith deixa pouco espaço para as frases de Burrell. Mas o guitarrista “impõe” seu instrumento em “Oh No, Babe” e mostra ao lado de Smith com quantas notas se faz um blues de doer o coração.

A formação de trio tem seu ponto alto no fabuloso tema “Satin Doll”, composto por Duke Ellington. É neste momento que guitarra, bateria e órgão se completam e você até esquece que não está ouvindo instrumentos de sopro ou o piano. O único problema do disco é sua duração, apenas 35 minutos. Mas é claro que isso não será um empecilho para você ir correndo comprar o seu exemplar, não é??!!!.






segunda-feira, 1 de julho de 2019

2019: Críticos da DownBeat escolhem os melhores do ano

A mais esperada premiação do mundo do jazz tem finalmente seus vencedores divulgados. Como acontece todos os anos, a octogenária revista norte-americana Downbeat, em sua edição de agosto, publica a lista com os premiados no Annual DownBeat International Critics Poll, ou seja, a votação feita pelos críticos. A votação feita pelos leitores é publicada sempre na edição de dezembro.

Em 2019, em sua 67° edição, o prêmio mais cobiçado, o de artista do ano, ficou com a cantora Cécile McLorin Salvant (na capa da edição de agosto ao lado), que também ficou com o prêmio de melhor cantora de jazz.

Em 2018, Cécile também venceu em duas categorias: melhor cantora e melhor álbum (Dreams And Daggers). A cantora também faturou este ano o Grammy de melhor disco de jazz pelo álbum The Window.

Outro destaque é a gravadora alemã, ECM, que em 2019 completou 50 anos de vida. O idealizador do selo, Manfred Eicher, levou o prêmio de produtor do ano, pelo segundo ano consecutivo, e a ECM como gravadora do ano.

O disco do ano ficou para Wayne Shorter, com o álbum Emanon. Neste ano, o disco também faturou o Grammy na mesma categoria.

Na categoria melhor disco histórico, o disco perdido de John Coltrane chamado Both Directions At Once: The Lost Album foi o grande vencedor.

Anualmente, também são premiados nomes que fizeram a história do jazz. Os vencedores deste ano são o baixista Scott LaFaro, que tocou no trio do pianista Bill Evans na década de 1960, a cantora Nina Simone e o cantor Joe Williams, que marcou época como vocalista da orquestra de Count Basie.

A premiação também destaca as revelações no universo do jazz, que é chamado de Risng Star. Assim como nos prêmios principais, há vencedores em diversas categorias.

Entre os destaques deste ano está o pianista Sullivan Fortner, que venceu como artista e como pianista. Fortener é mais conhecido por sua parceria com a cantora Cécile McLorin Salvant no disco The Window.

No fim da matéria estão vídeos com temas dos discos vencedores de John Coltrane, Wayne Shorter e Van Morrison com Joey DeFrancesco, além de uma canção do último disco de cantora Cécile McLorin Salvant.

VEJA ABAIXO OS VENCEDORES

Hall of Fame

Scott LaFaro
Nina Simone
Joe Williams

Artista
Cécile McLorin Salvant

Álbum
Wayne Shorter, Emanon (Blue Note)

Álbum histórico
John Coltrane, Both Directions At Once: The Lost Album (Impulse!)

Grupo
Fred Hersch Trio

Orquestra
Maria Schneider Orchestra

Trompete
Ambrose Akinmusire

Trombone
Steve Turre

Sax soprano
Jane Ira Bloom

Sax alto
Miguel Zenón

Sax tenor
Joe Lovano

Sax baritono
Gary Smulyan

Clarinete
Anat Cohen

Flauta
Nicole Mitchell

Piano
Kenny Barron

Teclado
Robert Glasper

Orgão
Joey DeFrancesco

Guitarra
Mary Halvorson

Baixo
Christian McBride

Baixo Elétrico
Steve Swallow

Violino
Regina Carter

Bateria
Brian Blade

Percussão
Hamid Drake

Vibrafone
Stefon Harris

Outros instrumentos
Tomeka Reid (cello)

Cantora
Cécile McLorin Salvant

Cantor
Kurt Elling

Compositor
Maria Schneider

Arranjador
Maria Schneider

Gravadora
ECM

Produtor
Manfred Eicher

Blues
Buddy Guy

Álbum de blues
Buddy Guy, The Blues Is Alive And Well (RCA)

Artista que não toca jazz
Rhiannon Giddens

Álbum além do jazz
Van Morrison & Joey DeFrancesco, You’re Driving Me Crazy (Legacy)







quarta-feira, 26 de junho de 2019

NEA Jazz Masters

Anualmente, a entidade National Endowment for the Arts (NEA) premia pessoas que de alguma maneira contribuíram para o desenvolvimento do jazz.

Desde 1982, cerca de 100 personalidades, entre músicos, compositores, arranjadores, jornalistas, radialistas e escritores, receberam a honraria batizada de NEA Jazz Masters.

Nomes como Count Basie, Sonny Rollins, Dizzy Gillespie, Miles Davis, Sarah Vaughan, Chick Corea, Ella Fitzgerald, Pat Metheny e Dan Morgenstern já foram premiados pela NEA.

Em 2019, os vencedores foram o cantor Bob Dorough, a arranjadora Maria Schneider, o pianista Abdullah Ibrahim e crítico Stanley Crouch. Na página oficial da entidade você encontra a relação de todos os vencedores e uma breve biografia de cada um deles. Clique aqui para acessar a lista completa.

No início de maio, foram divulgados os nomes dos novos membros deste seleto grupo em 2020. São eles: o cantor Bobby McFerrin, o saxofonista Roscoe Mitchell, o baixista Reggie Workman e a radialista Dorthaan Kirk. A festa de premiação acontecerá no dia 2 de abril, em São Francisco (EUA).

Com quase quatro décadas de carreira, McFerrin é um dos mais talentos vocalista de toda a história. Ele apareceu no meio da década de 1980 e estourou com a música "Don't Worry, Be Happy". Desde então, construiu uma carreira impecável dentro do jazz e da música erudita. O saxofonista Roscoe Mitchell, de 78 anos, é um dos fundadores do emblemático grupo Art Ensemble of Chicago e um dos pilares do movimento avant-garde.

Outro veterano é o baixista Reggie Workman, de 82 anos. No currículo, passagens pelos grupos do baterista Roy Haynes e do pianista Red Garland, além de ter tocado no quarteto do saxofonista John Coltrane. A radialista Dorthaan Kirk, única premiada que não é músico, é conhecida como "Fisrt Lady of Jazz". Ela trabalhou por décadas na rádio WBGO, de Nova Jersey (especializada em jazz), e, até hoje, está envolvida em projetos relacionados ao jazz. Dorthaan é viúva do saxofonista Rahsaan Roland Kirk,  


OS PREMIADOS EM 2020



VEJA ABAIXO TODOS OS VENCEDORES DO NEA JAZZ MASTERS


1982: Roy Eldridge, Dizzy Gillespie e Sun Ra
1983: Count Basie, Kenny Clarke e Sonny Rollins

1984: Ornette Coleman, Miles Davis e Max Roach
1985: Gil Evans, Ella Fitzgerald e Jonathan Jones

1986: Benny Carter, Dexter Gordon e Teddy Wilson
1987: Cleo Patra Brown, Melba Liston e Jay McShann

1988: Art Blakey, Lionel Hampton e Billy Taylor
1989: Barry Harris, Hank Jones e Sarah Vaughan

1990: George Russell, Cecil Taylor e Gerald Wilson<
1991: Danny Barker, Buck Clayton, Andy Kirk e Clark Terry

1994: Louie Bellson, Ahmad Jamal e Carmen McRae
1995: Ray Brown, Roy Haynes e Horace Silver

1996: Tommy Flanagan, Benny Golson e J.J. Johnson
1997: Billy Higgins, Milt Jackson e Anita O'Day

1998: Ron Carter, James Moody e Wayne Shorter
1999: Dave Brubeck, Art Farmer e Joe Henderson

2000: David Baker, Donald Byrd e Marian McPartland
2001: John Lewis, Jackie McLean e Randy Weston

2002: Frank Foster, Percy Heath e McCoy Tyner
2003: Jimmy Heath, Elvin Jones e Abbey Lincoln

2004: Jim Hall, Chico Hamilton, Herbie Hancock, Luther Henderson, Nat Hentoff e Nancy Wilson
2005: Kenny Burrell, Paquito D'Rivera, Slide Hampton, Shirley Horn, Artie Shaw, Jimmy Smith e George Wein

2006: Ray Barretto, Tony Bennett, Bob Brookmeyer, Chick Corea, Buddy DeFranco, Freddie Hubbard e John Levy
2007: Toshiko Akiyoshi, Curtis Fuller, Ramsey Lewis, Dan Morgenstern, Jimmy Scott, Frank Wess e Phil Woods

2008: Candido Camero, Andrew Hill, Quincy Jones, Tom McIntosh, Gunther Schuller, Joe Wilder
2009: George Benson, Jimmy Cobb, Lee Konitz, Toots Thielemans, Rudy Van Gelder e Snooky Young

2010: Muhal Richard Abrams, George Avakian, Kenny Barron, Bill Holman, Bobby Hutcherson, Yusef Lateef, Annie Ross e Cedar Walton
2011: Hubert Laws, David Liebman, Johnny Mandel, Orrin Keepnews e Marsalis Family (Ellis Marsalis, Jr., Branford Marsalis, Wynton Marsalis, Delfeayo Marsalis e Jason Marsalis

2012: Jack DeJohnette, Von Freeman, Charlie Haden, Sheila Jordan e Jimmy Owens
2013: Mose Allison, Lou Donaldson, Lorraine Gordon e Eddie Palmieri

2014: Jamey Aebersold, Anthony Braxton, Richard Davis e Keith Jarrett
2015: Carla Bley, George Coleman, Charles Lloyd e Joe Segal

2016: Gary Burton, Wendy Oxenhorn, Pharoah Sanders e Archie Shepp
2017: Dee Dee Bridgewater, Ira Gitler, Dave Holland, Dick Hyman e Lonnie Smith

2018: Pat Metheny, Dianne Reeves, Joanne Brackeen e Todd Barkan
2019: Bob Dorough, Abdullah Ibrahim, Maria Schneider e Stanley Crouch

2020: Bobby McFerrin, Roscoe Mitchell, Reggie Workman e Dorthaan Kirk
2021:

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Chris Potter volta elétrico e irrequieto

Quem acompanha a carreira do saxofonista Chris Potter sabe que seu som não é exatamente simples de se ouvir. Mas é claro que isso não é um problema.

Pelo contrário, o som encorpado de Potter é fruto da sua inquietação musical. Isso fica cristalino ao olharmos sua discografia solo ou sua participação em quase 100 discos de outros músicos.

Hoje, aos 48 anos, Potter é um veterano dentro do jazz, com três décadas de história tocando ao lado de nomes do quilate de Dave Douglas,, Herbie Hancock, Jim Hall, John Scofield, Pat Metheny, Paul Motion e Ray Brown. Sua discografia está espalhada pelos selos Cris Cross, Concord, Verve e ECM.

Agora, mais uma vez, sua conhecida inquietação o leva para um novo desafio e uma nova gravadora, a britânica Edition Records, após vários anos na gravadora alemã ECM. A nova empreitada de Potter chama-se Circuits, com o apoio do jovem tecladista James Francies e do velho parceiro Eric Harland, na bateria. O disco conta ainda com a participação do baixista africano Linley Marthe.

Desta vez, Potter preferiu uma sonoridade mais "moderna" ao escolher o piano elétrico e o baixo elétrico como pano de fundo para os seus solos sempre criativos. Isso fica muito claro logo de saída com "Hold It", na qual a sonoridade do sax está robusta e em perfeita sintonia com o teclado de Francies. Em "The Nerve", o baixo de Marthe conversa com o sax mais livre de Potter.


Eric Harland, Chris Potter e James Francies protagonizam o disco

O clima muda completamente em "Koutomé", uma composição do músico africano Amenoudji Joseph Vicky. Aqui, a bateria de Harland dá o tom para que Potter e Marthe, nascido nas Ilhas Maurício, na África Oriental, consigam traduzir suas ideias em seus instrumentos.

A faixa título é sem dúvida o tema que mais deixa evidente a unidade do quarteto. Todos os instrumentos estão conversando entre si, de forma coerente e com criatividade. O formato de trio volta com força em "Green Pastures" e "Queens of Brooklyn", esta última uma breve balada com Potter lançando mão do sax soprano e da flauta.

Os temas "Exclamation" e "Pressed For Time" terão efeito direto nos ouvidos dos fãs do grupo Weather Reporter. A unidade e a energia do grupo nos remete diretamente ao trio Jaco Pastorius, Wayne Shorter e Joe Zawinul. Ambas são uma viagem musical vertiginosa e naturalmente contagiante. A primeira com a formação do quarteto e a última em trio, composta pelo irrequieto Francies.

O final do disco não poderia ter sido mais pujante. Potter dispara toda a sua munição de frases musicais de uma maneira extremamente pessoal e articulada. As frases que muitas vezes parecem desconectadas para o ouvinte menos iniciado acabam se unindo e criando uma música vigorosa e desafiadora para quem ouve. Ponto para Potter, que não poupa esforços para encontrar novos caminhos para mente musical sem limites.